Durante uma exaustiva viagem pelo cerrado brasileiro, um jovem cavaleiro se acidenta. É encontrado por um negro escravizado que generosamente o resgata e o leva sobre os ombros até a propriedade mais próxima. Além deste laço improvável, outra ligação se forma: entre o cavaleiro convalescente e a bela Úrsula, moradora da casa a que ele foi levado para repousar. A obra ganha potência e singularidade com os personagens negros e escravizados, como Túlio e Susana, que pela primeira vez na literatura foram retratados como indivíduos de valor e interesse para a narrativa, com um passado rico e subjetividades próprias. Mais que coadjuvantes, esses personagens usam sua voz para ativamente denunciar os horrores do regime escravocrata a que estão submetidos.
A nova edição da Antofágica conta com ilustrações de Heloisa Hariadne e apresentação da multiartista e ativista Preta Ferreira. Os posfácios são assinados pelas professoras doutoras Fernanda Miranda (USP), especialista na obra de Maria Firmina dos Reis, e Régia Agostinho, pesquisadora da história econômica das mulheres no contexto da escravidão, e pela renomada escritora Conceição Evaristo. Extra: Ao escanear com seu smartphone o QR Code presente na cinta, você tem acesso a duas videoaulas, uma para antes de ler e outra para após a leitura, com Lívia Natália, escritora e doutora em Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Bahia.








Bárbara Severino –
Úrsula, mesmo sendo um romance abolicionista, apresenta diversas camadas críticas e realista – um romance transgressor. Quebrando padrões da época, Maria Firmina dos Reis constrói, com sua magnitude nas palavras, personagens negros com profundos sentimento e personagens brancos planos – ausência de tal sentimento e reflexão. Além disso, o conto sobre a escravidão no capítulo XIX constitui de uma grandeza emocional de tão sábia ao racional, isto é, as palavras escolhidas para formas as orações são simples – devido ao período Romântico – mas, ao mesmo tempo, complexas de algo tão pesado que as mesmas carregam. Ler Úrsula é um presente, não pelo conteúdo principal da obra – o romance entre Tancredo e Úrsula – mas sim, sobre o processo de escravização dos africanos e como eles eram tratados no navio negreiro. Recomendo àqueles que buscam um estudo mais aprofundado em escritas do século dezenove, aos amantes da literatura e aos dispostos à grandes reflexões.