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Capa do livro O cortiço, da NANO.

O CORTIÇO

Aluísio Azevedo

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APRESENTAÇÃO

Alê Garcia

Foto em preto e branco de Alê Garcia.

Ler O cortiço quando você não é mais um adolescente sendo forçado a esta leitura pela escola evoca sentimentos muito além daqueles que figuram na quarta capa do livro.

Sim, é uma história forte demais, cruel demais, sensual demais. Escancara uma realidade infelizmente condizente com aquele momento histórico, cultural e social do país. E, o mais triste: uma realidade ainda muito próxima de nós.

O cortiço foi uma inovação no romance brasileiro, uma nova perspectiva literária naqueles idos 1890. Porém, se quando era apenas um adolescente eu não era capaz de articular as razões por trás das mazelas da narrativa, hoje meu olhar se sensibiliza muito mais. É como se antes, inconscientemente, eu aceitasse as teses deterministas, e acreditasse que é possível entender o comportamento humano somente pelas lentes de raça, meio e momento. Hoje compreendo o contexto e me revolto, pois sei que os personagens negros retratados por Aluísio Azevedo foram criados e descritos à luz de um pensamento que perpetuou estereótipos. Estereótipos que precisamos combater, mas que só compreendemos historicamente quando temos acesso a uma leitura como esta.
 
Os personagens, em O cortiço, são arautos, mensageiros: personificam teorias e crenças naturalistas. Crenças estas que fundamentaram as noções de raça em nossa sociedade, encapsuladas em termos como “uma aglomeração de machos e fêmeas”. A mulata exótica e
sedutora; a negra subalterna; a prostituta — todos, obviamente, pessoas negras. Porque do lado branco há, é claro, os signos do dinheiro e da pureza: como o explorador capitalista e a esposa recatada e do lar.
 
Apesar da maneira como me choca a forma como os personagens são apresentados neste romance, hoje, ainda mais do que ontem, é preciso ler e reler O cortiço. E você tem sorte de poder lê-lo hoje, à luz de todo conhecimento social e racial à sua disposição. Seus sentimentos ainda irão se inflamar? Sim, porque você tem um coração. Mas é preciso que você o faça, porque, sim: você tem um cérebro.
 
A leitura deste livro é essencial para que possamos entender ainda mais como se formou o Brasil a partir do seu próprio e distorcido entendimento do que deveria ser o Brasil: um país cimentado sobre “verdades” biológicas, pressuposições raciais, certezas estéticas e sociais. Um país que era, e ainda é, crente de que são estes os determinantes da existência das pessoas. Um país que se nega a olhar para si mesmo e entender seu histórico de culpa e de atitudes abjetas — atitudes que resultaram na certeza, então, de que personagens como os deste livro são assim pois é de sua “natureza”. São assim, vivem assim, pois é assim “que tem que ser”.
 
Como isto parece atual, não?
 

 

*ALÊ GARCIA escritor e criador de conteúdo. Finalista do Prêmio Jabuti e um dos 20 creators negros mais inovadores do país segundo a Forbes.

Posfácio 01

O cortiço hoje

por José Falero*

Se O cortiço foi alçado à condição de clássico da literatura brasileira, como de fato foi, e se aí permanece até os dias de hoje, como de fato permanece, algum motivo deve haver. No entanto, ao precipitar-se para a conclusão de que tais fenômenos se devem pura e simplesmente às qualidades estéticas da obra, sejam estas discutíveis ou indiscutíveis, o crítico do século 21 fatalmente incorreria na mais flagrante inconsistência. Isso porque – ao contrário do final do século 19, quando o romance de Aluísio Azevedo foi originalmente publicado – hoje o que não falta são ferramentas intelectuais que contribuem em investigações dessa natureza, e o fato de muitas delas, se não todas, haverem sido concebidas e apuradas fora do campo literário, não raro à revelia deste, em nada as deslegitima para o referido propósito. Não é possível, por exemplo, reconhecer a meritocracia como a falácia que efetivamente é e – a um só tempo, por indesculpável falta de atenção, ou mesmo para evitar dores de cabeça aqui e ali – usá-la como bengala teórica ao avaliar as eventuais proezas de uma obra literária. A verdade é que, em grande medida, O cortiço tornou-se um clássico da literatura brasileira, e ainda o é, porque brotou e se desenvolveu em um habitat propício à sua natureza, isto é, em uma sociedade quase de todo incapaz de reparar nas aberrações (inclusive técnicas) que se apresentam no livro, e mais incapaz ainda de pronunciar-se a respeito delas.

Nesse sentido, não escapará ao observador atento que a obra parece depor contra si mesma justamente através da sua maior e mais exaltada virtude: seu caráter sociologicamente denunciador, pouco comum, talvez mesmo inédito, na literatura produzida no Brasil até aquele momento. Afinal, enquanto produto de seu tempo e de seu lugar, o romance de Azevedo não pode, à maneira de sagrada exceção, descolar-se das circunstâncias problemáticas que ele próprio termina por denunciar, voluntária ou involuntariamente. Em outras palavras, a ascensão de O cortiço à condição de clássico da literatura brasileira não deixa de ser um fato social, e assim não pode, e não deve, ser dissociada do pântano de injustiças absolutas que o livro descortina, pois também ele nasceu por ali. Aliás, não só nasceu por ali, como por ali segue alimentando-se até hoje, sem jamais ter visto seu status minimamente prejudicado ao longo do tempo, o que por óbvio também encontra explicação nas particularidades do contexto social brasileiro de uma perspectiva histórica: se por um lado temos à disposição, aqui e agora, categorias de análise com as quais nem sequer se podia sonhar no Brasil do final do século 19, por outro as estruturas sociais do país, em essência, permanecem muito parecidas, quase as mesmas dos anos de 1890, com seus mecanismos de manutenção de injustiças e privilégios praticamente inalterados.
 
Atrevo-me, portanto, a indagar: seja lá no final do século 19, seja cá no início do século 21, que tal seria um romance como O cortiço se concebido e empreendido por uma Bertoleza da vida ou por um Firmo da vida? Eis aí uma pergunta tão relevante hoje como há um século e meio, porque, de lá para cá, as Bertolezas da vida seguem a suicidarem-se desesperadas e os Firmos da vida seguem assassinados em emboscadas, ao passo que segue cabendo aos Joãos Romão da vida a possibilidade de ascensão social, a possibilidade de acúmulo de riquezas, a possibilidade de beneficiar-se perversamente com a desumanização sistemática das pessoas negras e não obstante figurar como sócio benemérito entre brancos abolicionistas (ou, em termos hodiernos, entre brancos antirracistas) e finalmente (por que não?) a possibilidade de escrever um livro como O cortiço.
 

Mas outro que se encarregue dos elefantes na sala dos clássicos da literatura brasileira; não é esse meu objetivo aqui. Assim como também não pretendo aprofundar-me nos aspectos técnicos do romance de Azevedo — pelo menos não mais do que o eventualmente necessário para ilustrar os caminhos que conduzem ao ponto aonde quero chegar. E tal ponto, que não deixa de pertencer à caixa de possibilidades d’O cortiço, sem dúvida posiciona-se muito mais próximo de quem o leu (e de quem ainda o lerá) do que de quem o escreveu.

Não há nada de novo em pensar a figura do leitor como uma espécie de entidade que, ao acompanhar uma narrativa, assume função mais ativa do que passiva e, desse modo, termina por desempenhar papel decisivo na construção dos aspectos daquilo que vai lendo, a partir de seu próprio repertório simbólico. O que não se costuma debater com tanta frequência são as importantes e interessantes implicações de se analisar a relação livro-leitor a partir dessa ótica, sobretudo quando o livro em questão é um clássico. Por exemplo, o repertório simbólico de cada leitor, encarado como um todo, há de ser sempre único, por razões elementares; também é óbvio, entretanto, que porções consideráveis do repertório simbólico de um determinado leitor são, na verdade, de natureza coletiva, compartilhadas entre leitores congêneres nos mais variados sentidos, como conterrâneos ou — o que nos interessa mais aqui — contemporâneos. Daí que, de uma época a outra, e desta a uma terceira, e assim por diante, através dos tempos, as porções compartilhadas de repertórios simbólicos que guardam relação com as ideias de um período em particular alteram-se em relação às do período anterior, de maneira que uma obra clássica como O cortiço, que atravessa gerações, jamais pode fazê-lo incólume; ao contrário, vai de metamorfose em metamorfose, tornando-se uma obra diferente a cada intervalo, transformada e transformada e transformada pelos leitores de cada época. 

Que tipo de O cortiço, então, podemos construir hoje, a partir da elaboração inicial de Azevedo e das porções de repertórios simbólicos que compartilhamos enquanto leitores do século 21? Desnecessário dizer que não serei eu, mas o tempo, a responder essa pergunta de maneira definitiva. O que não me impede, claro, de esboçar uma pequena conjetura.

Para princípio de conversa e efeito ilustrativo, lembremos de Jerônimo, personagem inicialmente apresentado no romance de Azevedo como português sóbrio, trabalhador dedicado, criatura admirável que, depois, degringola irremediavelmente. Se a vida do cavouqueiro branco, enquanto trabalhador braçal, desde o princípio contrasta com a de Miranda e a de João Romão — ambos brancos e portugueses como ele, mas proprietários —, também é marcante o grau de oposição entre as condições de existência das duas versões do próprio Jerônimo: uma anterior e outra posterior à decadência que o transforma. Tal degradação não passa despercebida no romance, embora tecnicamente bem pudesse passar; ao contrário, é flagrante, e por isso mesmo emblemático, o esforço da narrativa para investigar o que conduziria o trabalhador português ao naufrágio, e nesse processo se produz um dos tantos vexames d’O cortiço: a destruição do sujeito como efeito de se “abrasileirar”¹ — conduta que, da perspectiva do narrador, mostra-se de modo geral reprovável e engloba, entre outras coisas, o envolvimento amoroso de Jerônimo com Rita Baiana, uma mulher negra.

Mas os aspectos estapafúrdios disso não nos interessam tanto quanto o próprio afã da narrativa de tecer justificativas para a degradação do cavouqueiro branco, quaisquer que fossem, porque é justamente tal empenho que evidencia a violência com que outras figuras e linhas dramáticas da obra são abafadas. Bertoleza, outra mulher negra, por exemplo, é apresentada logo na primeira página do romance e figura também em sua última, ocupando entre elas um espaço mais amplo e mais central do que o de Jerônimo e experimentando, de ponta a ponta, um autêntico suplício que inicia-se em seu envolvimento com João Romão e termina em seu suicídio desesperado; as dimensões, as nuances e o caráter progressivo de tal suplício, não obstante, percebem-se quase que exclusivamente por adivinhação, porque o narrador, longe de querer ocupar-se disso, reduz malignamente toda a desgraça de Bertoleza à condição de fenômeno natural que dispensa comentários.

Não se trata de mera desproporção casual. O nome disso é racismo. O Cortiço é uma obra racista. Não só nos aspectos mais externos, isto é, nas expressões terceirizadas aos personagens e ao narrador, mas também em seu âmago, nos alicerces da própria dinâmica narrativa. E nada disso, suponho, há de passar em branco aos olhos dos leitores do século 21.

Resta ainda, contudo, uma reflexão cabível: o que fazer com uma obra cuja natureza preconceituosa beira a incompatibilidade com os tempos em que volta a ser publicada e lida? Particularmente, não gosto da ideia de sair por aí queimando livros. Penso, entretanto, que temos sempre o direito, talvez mesmo o dever, de exercer o criticismo, especialmente à ressurreição de uma narrativa problemática e perigosa como a de O cortiço, dona de notório potencial para a ofensa e para o tolhimento das subjetividades de uma população inteira.

*JOSÉ FALEROescritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas), Os supridores (Todavia) e Mas em que mundo tu vive? (Todavia), ganhador do prêmio Jacarandá de autor revelação 2020.

Hoje não faltariam pensadores negros inclinados a interpretar o verbo “abrasileirar” como “enegrecer”, no contexto da narrativa. Com efeito, Jerônimo não apenas se envolve amoro- samente com uma mulher negra como também adere a uma série de hábitos e costumes pró- prios da população negra brasileira.

Posfácio 02

O cortiço: memórias e paradoxos do Brasil

 por Sílvio Roberto dos Santos Oliveira*

O romance O cortiço atravessou décadas sob a guarda de determinadas escolhas pedagógicas, contempladas pelos vieses raciais e de classes. Por motivos compreensíveis, a meditação mais comum dá-se a respeito da narrativa, seus modos de elaboração e expressão e as repercussões consequentes, tanto à época em que foi lançado como em períodos posteriores. Isto é muito relevante, como é também pensar essas reverberações de leitura sobre o romance no século XX, uma vez que essa obra literária, talvez mais que outras, ficou marcada no imaginário de gerações. As leituras do século XXI comprovam sua atualidade naquilo que perplexa a discussão social como também no que faz pasmar os posicionamentos acerca das identidades brasileiras. Assim, a compreensão da obra em seu tempo importa tanto quanto aquela acionada por leituras posteriores. Embora o espaço deste texto seja restrito a uma reflexão compromissada, mas não ambiciosa sobre o assunto, válida talvez seja a apresentação de uma memória de leitura.

É preciso ressaltar a presença de O cortiço na formação escolar e, por consequência, no imaginário de jovens de quase todo o século XX. Ao mesmo tempo que muito lido, o romance foi quase sempre considerado um marco em vieses estéticos e narrativos, e especialmente valorizado pelo mercado editorial. O cortiço ocupa uma condição híbrida: ainda que seja considerado um texto fascinante, é também colocado em suspeição. O fato de ter sobrevivido a estes questionamentos talvez possa ser atribuído ao fato de atender a um interesse de popularização. Como nos provoca a refletir Pereira (2020, p. 23):

Seu objetivo, desde que começara a escrever, era chegar mais próximo da popularização do romance moderno. Agora, em 1890, com seu mais novo romance O cortiço, que se propunha a criar a tal história experimental baseada na vida real das classes populares da cidade, poderia conciliar a convicção estética e o ganho monetário, que andaram ao longo da década de 1880 apartados da sua vida profissional.1

A provocação reside exatamente no fato de O cortiço não poder ser reduzido a um mero romance de sucesso. Há fartas qualidades na narrativa, que suscitaram discussões bastante produtivas sobre sua estrutura e objetivos, como nos diálogos, diretos e indiretos, entre os críticos literários Antonio Candido e Afonso Romano de Sant’Anna. Candido nos dirá sobre as contradições de Azevedo, enquanto Sant’Anna articulará consequências estéticas e estruturais fincadas nos pressupostos científicos e paracientíficos do que se convencionou por naturalismo.2

Seja na análise da estrutura ou dos elementos figurativos, o diálogo desenvolvido por duas visões a respeito de O cortiço traz relevo às relações socialmente hierárquicas e raciais do Brasil de então, nas quais o sujeito português é sublinhado como aparentemente superior ao sujeito negro, enquanto também parece constar em posição de subordinação na escala europeia. Todos os sujeitos, no entanto, são em algum nível animalizados.

É possível encontrar ponderações sobre o racialismo e racismo em O cortiço, mas são em geral amenizadas ou ignoradas por textos críticos. Do ponto de vista deste articulista, é nota tácita que o racismo se apresenta no romance, integrado que esteve e está a uma configuração da sociedade brasileira que ofende, rebaixa e violenta populações negras, indígenas, mulheres e outros gêneros. Como isto é muito óbvio, importante saber a repercussão do fato em leitores não especializados.

Vamos a uma memória de leitura: o romance constava da lista de livros de escolas públicas no estertor da ditadura militar e censura no início dos anos 1980. Este autor ainda era uma criança negra sob o assombro de ter O cortiço nas mãos, bem como suas cenas, ironias e crueldades verbais. Não só muitas das personagens no texto sofrendo chacotas me faziam desconfiar de supostas parecenças comigo ou com homens e mulheres de minha família, como as descrições do cotidiano ou mesmo os trechos picantes funcionaram como a perversão imaginária de minha realidade (a origem, a cor da pele, as relações religiosas e culturais com a África, mesmo as ofensas eram atuais e reconhecíveis). É que eu morava no Ponto da Mangueira, em uma rua do bairro Vasco da Gama, Salvador, e o cortiço descrito assemelhava-se em demasia com o lugar. Este é um dado fundamental: as paisagens de Azevedo não são reais propriamente, são literariamente realistas, ou seja, as palavras denotam os desenhos geográficos e comunitários e, desse modo, lembravam-me as minhas próprias paisagens.

O Ponto da Mangueira é uma rua encravada na periferia do centro de Salvador, que se encontra geograficamente abaixo de outros dois bairros, Federação e Brotas, e que vivia à época explodindo palavras e gestos de seus moradores, nervosos ou eufóricos em seus passos, subindo e descendo suas ladeiras, dormindo e acordando em suas casas recostadas umas nas outras, em formas irregulares, muitas assentadas por lajes, muitas sem reboco, algumas intensamente coloridas, em meio a zoadas, canções e outros sons diversos. A rua é cortada ao meio por uma pequena travessa. É nessa travessa que está o comércio principal, a maior padaria, o depósito de materiais, o depósito de bebidas, os botecos, as casas mais antigas, os negócios ilegais ao fundo, os grupos de homens maduros que discutem futebol ou grupos de jovens que empinam arraias, papagaios e pipas. Por lá moravam (e hoje ainda assim é) pedreiros, lavadeiras, cozinheiras, arrumadeiras, serventes, porteiros, docentes, estudantes, músicos, cantoras, pessoas em diversas profissões, e que são católicas, evangélicas, pertencentes a religiões de matriz africana, especialmente do candomblé.

Desde os anos 1960, todos os moradores pagavam uma taxa anual ao autodeclarado dono daquelas terras, cedente das áreas. Havia os donos de padarias, à época referida filhos de estrangeiros, geralmente da península ibérica, espanhóis ou portugueses, com os quais se convivia em paz, mas na íntima sensação de uma guerra latente. Nós éramos estigmatizados como maloqueiros, pivetes, os filhos deles eram crivados como os galegos. Convivíamos, mas em desconfiança. Enquanto eu e meus colegas líamos os capítulos de O cortiço, erguíamos as sobrancelhas na intuitiva sensação da semelhança, mas também da vil diferença. Não conseguíamos enxergar do mesmo modo, não conseguíamos entender da mesma “feiura” que o narrador, nem perceber a lubricidade incessante assinalada. Víamos as moradias amontoadas, o dono do lugar que a todos cobrava e para quem algumas pessoas trabalhavam. As festas e as brigas em fins de semana também. De certo modo, a família estrangeira da padaria era efetivamente considerada “superior”, os ricos. Onde estava a sanha, os relinchos, os desafogos, os suores ininterruptos, as mulheres puxando as saias…? As superioridades e inferioridades sobreditas? Havia uma brutalidade e crueza, sim, mas não era a mesma. Nem poderia ser.

Óbvio que o romance não tratava do Ponto da Mangueira, tratava de um cortiço do século XIX e no Rio de Janeiro. A aproximação reflete o impacto da leitura em uma criança da Vasco da Gama naquela época. E apresenta outra questão relevante, que aqui não será desenvolvida: quais livros devem ser apresentados nos distintos graus do aprendizado, e em que momento? Especificamente neste agora do mundo, século XXI, as comunidades negras perguntam por que a escola demorou tanto para ler com maior atenção Lima Barreto e por que ainda não lê com a devida atenção Aline França.3 O fato é que O cortiço é considerado um marco da literatura brasileira no século XIX e ainda é tido como um romance de reflexão sobre a nação que se construía, em seus limites sociológicos e nas suas injustiças.

Há assim no mínimo três justificativas importantes para os diversos segmentos da sociedade brasileira ainda lerem O cortiço: é um romance consistente do século XIX, fomentador de ideologias nacionais; integra o imaginário escolar; instiga uma discussão sociológica sobre o Brasil e suas fundações raciais.

Em fins do século XX, no território de leitura acima assinalado, O cortiço revezava com outros romances, como Cazuza, de Viriato Corrêa, este último sem cenas eróticas e de submissões físicas apresentadas com naturalidade (com grifo proposital e óbvio, que troça com a denominação da estética naturalista).4 No entanto, a convivência dos dois romances foi possível porque havia neles aspectos largamente aceitos pela mentalidade brasileira: a violência (fosse a do senhor de escravizados ou a do professor com a palmatória), a animalização (de tipos variados e/ou na acentuação pessoas negras) e a crítica aos costumes (em O cortiço, implícita e apenas literariamente incidental; em Cazuza explícita e absolutamente incidental), hierarquizando tipos e valores. Uma vez que coube ao leitor atribuir sentidos aos textos, esses não sobreviveram sem contar com essa cumplicidade, essa parceria, que os redimensionaram em vozes plurais. Assim, se é justo contextualizar o tempo de uma obra, isto é, o tempo de sua publicação, faz-se justo também refletir sobre o tempo na obra, isto é, sobre como os seus sentidos vão se refazendo na medida das leituras. Obviamente, há o que “cabe na lata” e há o que não cabe, mas certeza maior é de que isso também cabe ao leitor, pois, como afirma Jorge de Souza Araújo, “todo texto é generoso, pois doa vidas; mesmo aquele texto que nos conduza às nossas mortes interiores”.5

Rascunhada a memória nessas linhas acima, este texto continua a se apresentar sob a insegurança de quem se abastece mais de dúvidas do que de certezas, e cuja memória foi abismada também pelas intensas provocações de O cortiço. As palavras então seguem tímidas na guarida das escassas convicções, salientando os direcionamentos que na organização do texto foram assumidos e que, conforme a visão apresentada, respondem a direcionamentos do romance, certamente contagiados pelos assombros dessa leitura.

Nas edições ou análises de O cortiço há, como provam as reflexões da historiografia, quatro chaves recorrentes: política, sociedade, cultura, economia. Nas explicações em notas há outra chave imprescindível que é raça, entendida como clave crítica que vai além da compreensão sobres classes, sem menosprezar as imbricações de uma com outra, e enquanto conceito fomentado por visões pretensamente científicas do século XIX.

Considere-se que existe outra via de compreensão, prezada em menor grau pela historiografia, ou seja, menos prezada, uma chave extra, também constante, mas minoritária em termos de predileção: a estética. A compreensão da noção estética em Aluísio Azevedo permitiu, quiçá (desde aqui se abrem as incertezas), os entrelaçamentos da arte com a ideia de ciência, como essa ideia ainda se constituía.

A leitura dessa estética foi afetada pela impressão de sua publicidade. O romance foi publicado no dia 13 de maio de 1890, o que ocorreu por oportuna intuição de mercado, como manifestação final de folhetim que já havia gerado expectativas: haveria em tese uma maior movimentação nas ruas devido à importância da data, referente à recente abolição oficial da escravatura. Além disso, há o fato de um romance eivado de pontuações racialistas ter sido publicado exatamente em uma data histórica, em princípio abolicionista, sob o pretexto da publicidade. De modo intencional ou não, essa provocação ficou à memória como emblema significativo: a data e o romance geram inúmeras reflexões.

Entretanto, ressalve-se, esses quadros sociológicos já presentes no romance permitem meditar, como já vimos, sobre variados aspectos, inclusive a respeito de dimensões da vida econômica: as persona- gens são apresentadas em consonância com papéis, especialmente os que se exercem de acordo com suas posses. A vida econômica das personagens é sempre ressaltada em suas caracterizações, assim como a própria descrição do cortiço. Nos primeiros parágrafos do romance, já se fica sabendo quem são João Romão e Bertoleza e, ao fim, já há um desenho bastante realçado sobre a condição econômica e personalidade de Miranda.6

As questões de identidade ou economia são apresentadas como elementos do conflito que se expunha na realidade brasileira e carioca: a tentativa de adoção da mentalidade europeia, sob tensões culturais e raciais, em contexto social de condições higiênicas e habitacionais bastante precárias.

Em meio a essas dimensões, práticas e costumes culturais são salientados aqui e acolá, oriundos do corolário popular, dos hábitos alimentares, das linguagens.

A literatura de Aluísio Azevedo não merece sofrer nenhum desprezo. Se o Brasil puder ser alegorizado como um sujeito frenético na sua diversidade, vê-se esse sujeito em O cortiço. Na busca de si mesmo, esse sujeito brasileiro nota no romance a insistência do verbo mourejar, por exemplo, e interroga-se sobre a instauração de padrões estéticos e culturais, bem como sobre a hierarquização dos mesmos. O sujeito medita ainda sobre as origens portuguesas em contraposição às mitologias ibéricas, bem como sobre o quase sempre apontado orgulho europeu. Fato é que a nação portuguesa já seria em si uma “moura torta” diante da Europa, disseminando lendas e mitos raciais nas Américas. Assim é que em notas postas nesta edição foi salientado o sentido corriqueiro e enviesado em XIX de “trabalhar como um mouro” enquanto “trabalhar como um negro, sem descanso”. A expansão portuguesa estigmatizou as suas íntimas relações com o mundo mouro. A alusão ao tipo mouro realça a ambiguidade das convicções de origem ao tempo que, neste caso, de modo incidental, dialoga com as narrativas fabulares (tal e qual a da moura torta, a mulher corcunda e negra, supostamente bruxa, supostamente feia, supostamente má e selvagem, que persegue uma princesa em conto da oralidade que se popularizou em inúmeras versões infantis), o que ressoa sem ligação direta a descrições de determinadas personagens, como o Libório, no capítulo VII do romance, que “causava terror” com “aquela sua implacável mandíbula”, seu “enorme queixo, ávido, ossudo e sem dente, que parecia engolir tudo, tudo”. A descrição acompanha o estereótipo do selvagem, que se estruturava já no imaginário do século XIX, lugar-comum estigmatizador, que se reproduz no século XX em descrições como a que faz do Velho Mirigido um símio, no já cotejado Cazuza. As notas de hierarquia racial se dão de modo explícito e implícito, como na percepção introjetada de Augusta sobre o esposo, no capítulo VII, em construção que borda nas entrelinhas o bem-intencionado racismo à brasileira: “Meu marido é pobre e de cor, mas eu sou feliz, porque casei por meu gosto”.

As escalas de valor racial estão demarcadas na narrativa, embora todas as raças e classes sucumbam ao vaticínio naturalista do ambiente, da animalização e da perecibilidade corpórea. Sobre o corpóreo, são fartos e óbvios os verbos que remetem ou fazem alusão à dita lubricidade e sensualidade acentuada nos trópicos, a “latejar” o sangue, “fumegar” terra e corpos, “esfervilhar”, “fazer crescer”, multiplicando “larvas”, reinterpretando as relações por imagens biológicas e em desordenação aparente. Não à toa, o termo “África” pode ser interpretado em dubiedade na narrativa, tanto como sinônimo de façanha e conquista ou como confusão, desordem, bagunça. As descrições procuram acentuar aspectos da sociedade e sujeitos em suas dimensões físicas, sexuais, biológicas, nos ditos e interditos. Ressalve-se que as desordens são indicadas como resultado de ordenações orgânicas, hereditárias e instintivas. A intensa movimentação de tipos e de paisagens, impressão comum às primeiras leituras de O cortiço, confessam ao fim uma narrativa muito organizada e habilmente dirigida.

A narrativa indica, sob este ponto de vista, a desconformidade do português em relação ao ideal europeu. Testemunhamos ainda as notas de saudade dessa terra ancestral e também idealizada, conforme os embalos dos fados que são lembrados em meio à balbúrdia por João Romão ou tocados nos encontros burgueses e familiares de Miranda. O notório colóquio literário com o estilo de Émile Zola, especialmente em Germinal, indica tópicos naturalistas, como extensão e acréscimo das opções realistas. É possível considerar que, assim como o naturalismo suplantou a confusão conceitual com o realismo, O cortiço, sendo o marco dessa expressão no Brasil, acrescenta uma noção local e uma visão social que ainda reverberam, por mais tensas e conflitantes que sejam, além de reinstaurar uma noção sobre o literário e acentuar perspectivas culturais e morais sobre sexualidade, raça e classe que, no mínimo, desenham preocupações ainda presentes. Segundo Patrícia Corrêa:

O naturalismo carrega o mérito de ter concedido representação literária aos marginalizados e excluídos, do ponto de vista racial, social e de orientação sexual. Paralelamente denunciou abusos sociais, assim como introduziu novas formas de diálogos, configurando a poesia da vida urbana. Sob o lema da modernidade, questionou o cânone romântico, convidando romancistas, artistas e intelectuais a uma revisão universal da arte. Dessa forma, atuou diretamente na reformulação do romance e da própria noção de literatura. Ultrapassando os limites de escola literária, deixou de se resumir em um aspecto artístico para caracterizar uma mudança de pensamento.7

Zola apresentou um consistente projeto estético e metodológico, que veio a ser denominado naturalista. Aluísio decerto assumiu esse projeto, com o acréscimo de participar das “descobertas do Brasil”8, nação que, enquanto comunidade imaginada, congrega e desagrega vários ideais. O naturalismo não é versão malsucedida das teorias de Zola, pois que há subversão. O cortiço, por sua vez, embora trate do Rio de Janeiro, apresenta um paradoxo interessante: em não sendo obra da periferia social brasileira, resulta da imaginação de um conjunto de sujeitos que expressam uma espécie de periferia nacional (representados sobremaneira por conhecidos nomes do norte e nordeste): Aluísio Azevedo, Tobias Barreto, Sílvio Romero, Araripe Júnior, José Veríssimo, Inglês de Sousa, Adolfo Caminha e outros. A obra de Aluísio Azevedo é emblema dessa contradição de uma elite periférica, que confessa as interfaces intricadas do pensamento e imaginário brasileiro. Porque nos incita e nos bafeja incômodos, bem construído que é, O cortiço sempre promove a atualização de suas leituras.

 

*SÍLVIO ROBERTO DOS SANTOS OLIVEIRAgraduado e mestre em Letras (UFBA) e doutor em Teoria e História Literária (UNICAMP). É professor titular de Literatura Brasileira da Universidade do Estado da Bahia, onde desenvolve pesquisas sobre autoria e memória negras. Como escritor, integra o coletivo Ogum’s Toques e publicou a novela Tombos e tosses do revolucionário Yuri Babacof (Editora Organismo).

1 PEREIRA, André. Para uma história social de O cortiço. Florianópolis: CFCH/Universidade Federal de Santa Catarina, 2020, p. 23.

2 Houve um debate salutar entre os dois pensadores, que não cabe nestas páginas. Aqui foi chamado de diálogo, pois assim foi entrevisto. É possível acompanhar as argumentações em: CANDIDO, Antonio. De cortiço a cortiço. Novos Estudos, CEBRAP, n. 30 – julho de 1991, p. 11-129. E em: SANT’ANNA, Affonso Romano de. “O cortiço”. In: Análise Estrutural de Romances Brasileiros. São Paulo: Ed. Unesp, 2012. (p.119-141).

3 O comentário apenas apresenta questionamento rápido sobre vieses pedagógicos, seleção curricular e bibliográfica. Lima Barreto não requer apresentação. Aline França, escritora negra de literatura sobre o fantástico e as noções de ciência ancestral, requer ser mais conhecida, assim como toda uma plêiade de outros/as escritores/as. Isto não significa a exclusão de Aluísio Azevedo, como foi dito, escritor fundamental para entender o Brasil, suas tensões e dissoluções, mas propõe também uma reavaliação de critérios, a respeito da diversidade e ainda sobre o como, o quanto e o quando algumas obras podem ser apresentadas.

4 V.: CORRÊA, Viriato. Cazuza. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976.

5 ARAÚJO, Jorge de Souza. “Escrevo para me manter vivo”. In: Letra, leitor, leituras: reflexões. 2a ed. Itabuna: Via Litterarum, 2006, p. 91.

6 Ver a seguinte análise: SEREZA, Haroldo Ceravolo. “O cortiço, romance econômico”. In: Novos Estudos. CEBRAP, n. 98, março de 2014, p. 185-200.

7 CORRÊA, Patrícia Alves Carvalho. O naturalismo em perspectiva comparada: de Émile Zola a Aluísio Azevedo. Rio de Janeiro: UERJ, 2011, p. 13.

8 Está citada diretamente Marlyse Meyer e a sua excelente análise. Ver: MEYER, Marlyse. “O eterno retorno: as descobertas do Brasil”. In: “Caminhos do imaginário no Brasil”. São Paulo: EDUSP, 1993.

Posfácio 03

Um livro atual

por Luiz Antonio Simas*

O cortiço, romance de Aluísio Azevedo, foi publicado em 1890, em um contexto especialmente impactante na história do Brasil, em virtude das recentes abolição da escravidão e queda da Monarquia. O momento era ainda mais intenso na história da cidade do Rio de Janeiro, cenário da trama, capital do país desde 1763, antigo Município Neutro da Corte do Império e, na ocasião, Distrito Federal da República.

Antes de entrar na obra propriamente dita, vale situar o autor a partir de rápidos dados de sua biografia. Aluísio Azevedo, nascido em 1857, era maranhense de São Luís. Aos 19 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro e começou a estudar na Academia Imperial de Belas-Artes e trabalhar como caricaturista em diversos jornais. A promissora carreira de caricaturista foi interrompida em 1879, quando em virtude da morte do pai retornou ao Maranhão para ajudar a família que passava dificuldades.

Chegando à terra natal, Azevedo começou a se dedicar à literatura e publicou seu primeiro livro, Uma lágrima de mulher, em 1880. No ano seguinte, ainda em São Luís, publicou O mulato. O sucesso desse romance o estimulou a retornar ao Rio de Janeiro e investir na carreira literária. A partir daí, publica contos, peças de teatro e artigos em jornais e se engaja na luta pela abolição da escravidão e pela proclamação da República. Em 1884, seis anos antes de lançar O cortiço, publicou já na capital do Império o romance Casa de pensão.

Em 1895, Aluísio Azevedo largou a literatura para se dedicar à diplomacia. Foi cônsul do Brasil na Espanha, Inglaterra, Itália, Japão, Paraguai e Argentina. Fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira n. 4, que teve como patrono o poeta Basílio da Gama. Faleceu em Buenos Aires, em 1913, e teve seus restos mortais transladados para São Luís cinco anos depois.

De certa forma, as questões que nortearão O cortiço já estavam bem insinuadas em Casa de pensão, romance que retrata as desventuras de Amâncio, um jovem maranhense que, chegando ao Rio de Janeiro para cursar medicina, é tragado pelo ambiente vertiginoso da cidade grande. Fascinado pela vida na Corte, o jovem se desvia do sonho da medicina, passa a frequentar pensões vagabundas, se envolve com mulheres, seduz uma moça e acaba assassinado pelo irmão dela.

Há um bom número de estudos que prioriza a análise dos romances de Aluísio Azevedo a partir de sua filiação ao naturalismo, movimento cultural com forte impacto na literatura que, em geral, é considerado uma ramificação mais extrema do realismo, sobretudo na crença de que é viável retratar artisticamente a realidade tal como ela efetivamente é. Tal vertente se popularizou no meio literário com muita rapidez, especialmente após a publicação de Germinal (1885), do francês Émile Zola, um relato duro sobre a vida dos trabalhadores das minas de carvão do interior da França no século XIX.

Para os naturalistas, a relação entre o homem e a natureza fornece uma chave para a compreensão do comportamento das pessoas, que seria basicamente condicionado pelo meio. Em um ambiente inóspito como o de um cortiço, a natureza humana se manifestaria de forma patológica, com o fortalecimento de características agressivas, fisiológicas, expressas na violência exacerbada, nas pulsões sexuais descontroladas e mesmo na alteração radical da personalidade, em virtude do ambiente.

Um personagem emblemático neste caso é o do português Jerônimo, honesto, contido, homem de família e trabalhador que, indo morar no cortiço, apaixona-se pela mestiça Rita Baiana e passa por radical alteração de seu comportamento. Nessa espiral de desajustes condicionados pelas circunstâncias, Jerônimo acaba assassinando Firmo, amante de Rita Baiana. Em virtude da situação, a esposa de Jerônimo, Piedade, entrega-se ao álcool, devastada pela traição e pela alteração do comportamento do marido.

Essa perspectiva naturalista também se reflete na personagem Pombinha, inicialmente uma jovem recatada, bonita, tímida, que acaba sendo condicionada pelo meio em que vive e passa a se prostituir, por influência de outra prostituta, Léonie.

Na sua já clássica História concisa da literatura brasileira, Alfredo Bosi chama a atenção para a preocupação maior de Aluísio Azevedo na elaboração do romance, que não seria a de construir uma trama minuciosamente elaborada, mas a de criar personagens convincentes. Neste sentido, mais do que as pessoas que transitam pelas cenas da história e da trama principal — a trajetória do português João Romão, dono do cortiço com ganas de subir na vida e se igualar a Miranda, português que vive em um sobrado aristocrático, enriquecido pela atividade de comerciante de tecidos – é o próprio cortiço que se afirma como um personagem fundamental, descrito por Azevedo como se fosse mesmo um organismo físico, pulsante, comandando a vida de todos os seus moradores.

Concordando com essa leitura, mas tentando de certa forma ampliá-la, creio que é possível entender o cortiço de Romão como um microcosmo que representa a própria cidade do Rio de Janeiro na ocasião.

A nascente República trouxe em seu bojo um projeto de reorganização do espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro, já esboçado desde meados do século XIX, que buscou representar a inserção do Brasil no modelo capitalista internacional, facilitar a circulação de mercadorias — inviabilizada pelas características coloniais da região central, com ruas estreitas que dificultavam a ligação com a zona portuária — e construir espaços simbólicos que afirmassem os valores de uma elite cosmopolita.

Havia, porém, um obstáculo a ser removido para a concretização deste projeto de cidade: os pobres que habitavam as ruas centrais e moravam em habitações coletivas, como os cortiços lotados de descendentes de escravizados, mestiços e imigrantes portugueses pobres que vinham tentar melhor sorte no Brasil.

No livro de Azevedo, além de ser o dono do cortiço, João Romão é dono de uma pedreira e dono de uma taberna. Em geral, os próprios pobres que realizavam o trabalho braçal na pedreira alugavam as casas do cortiço e compravam produtos diversos na venda do proprietário. Desta forma, enquanto Romão consegue enriquecer, os trabalhadores entram numa espiral de labuta e endividamento que não apresenta saídas. Este tipo de relação que o livro retrata foi bastante comum no pós-escravidão, especialmente numa cidade que fervilhava com a presença dos ex-escravizados e seus descendentes e dos imigrantes europeus encarados no continente de origem como sobras indesejáveis da revolução industrial.

Uma personagem emblemática do drama daqueles que tinham sido escravizados é Bertoleza, que faz serviços domésticos para João Romão. Na trama, Romão tornou-se amante de Bertoleza após forjar uma carta de alforria para ela e levá-la para trabalhar para ele. Como pretendia ascender socialmente, João Romão se aproxima do rico Miranda e, em busca de status, quer se casar com a filha dele, Zulmira. Para se livrar de Bertoleza e conseguir se unir à filha de Miranda, Romão resolve denunciá-la aos antigos proprietários como fugitiva e responsável pela fraude da alforria. Bertoleza, desiludida, se mata.

Não há como desconsiderar que a trama de O cortiço é perpassada o tempo inteiro pela relação paradoxal das elites e do poder público com os pobres — em sua maioria pretos, muitos portugueses. Vistos como elementos de “classes perigosas”, expressão largamente utilizada na época, eles representavam um empecilho para os delírios civilizatórios de uma elite que se pretendia francesa, e representavam um obstáculo à ideia de reordenação do espaço urbano que alicerçaria o desejo da cidade moderna e cosmopolita.

Para que esse sonho cosmopolita se concretizasse, era necessário reprimir, controlar, vigiar, disciplinar e impor padrões e regras preestabelecidas a todas as esferas da vida. Ao mesmo tempo, falamos de trabalhadores urbanos que sustentavam — ao realizar o trabalho braçal que as elites não cogitavam fazer — a viabilidade deste mesmo sonho: operários, trabalhadoras domésticas, seguranças, soldados, peixeiros, feirantes, condutores de bonde, coveiros, floristas, caçadores de ratos, desentupidores de bueiros, quebradores de pedras (como é o caso de muitos personagens do livro), etc.

Esta cidade que se pretendia “civilizada” era ainda marcada pela tentativa dos detentores do poder de extirpar as referências da herança africana, expressas nas diversas manifestações culturais das populações negras. Eram sistematicamente perseguidas exatamente aquelas que engendravam novos laços de sociabilidade e reforçavam convívios comunitários: a roda de samba, as festas religiosas, as mal- tas de capoeira, os blocos carnavalescos que começavam a se formar, os batuques diversos.

A lei de criminalização da capoeiragem, que passa a considerar os capoeiras como vadios sujeitos a detenção de dois a seis meses, aprovada no Código Penal sancionado em 1890, mesmo ano em que O cortiço é publicado, é emblemática do período. Ela explicita que o racismo herdado do colonialismo se manifesta — com mais furor — a partir de características físicas, mas não apenas aí. A discriminação também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc.

É evidente que a tensão que perpassa as páginas de O cortiço reverbera na configuração do espaço urbano carioca. A construção de estratégias de sobrevivência das populações descendentes de negros escravizados e dos imigrantes pobres, em uma cidade que se pretendia cosmopolita e cartão postal de um Brasil preparado para se inserir no processo de expansão capitalista nos primeiros anos da República, é das aventuras mais dramáticas e contundentes do processo de configuração do Rio de Janeiro, e até hoje ressoa nas nossas ruas, como memória ou esquecimento de beleza e dor.

O cortiço, como a cidade, fala de sobrevivência, tensões, disputas incessantes, espoliações, delírios de grandeza, desumanização, amor, sexualidade, festa, morte, desarticulação de experiências comunitárias e rearticulação dessas mesmas experiências, a partir de reconfigurações do espaço. Aluísio Azevedo, como um homem do seu tempo, expressou no romance as contradições de um autor que, ao mesmo tempo que denuncia a sanha dos exploradores na figura de João Romão, abraça fielmente os pressupostos do naturalismo, que vê os homens e as mulheres como vítimas do meio, sem atentar para as nuances que se expressam na construção de sentidos poderosos de vida no meio da escassez.

Por fim, vale recordar que o romance de Aluísio Azevedo anunciou, de certa forma, o que ocorreria nos anos seguintes com as moradias coletivas e se expressou no caso do Cabeça de Porco, o mais famoso cortiço carioca, situado na região portuária do centro carioca. À sua entrada, existia um portão de grandes dimensões encimado por uma cabeça de porco.

Em janeiro de 1893, três anos depois de o romance ser lançado, o prefeito Barata Ribeiro baixou um decreto que permitia à prefeitura utilizar-se de todos os meios possíveis para acabar com os cortiços da cidade. No mesmo dia em que o decreto foi assinado, 26 de janeiro, começou a demolição do Cabeça de Porco, invadido por bombeiros, funcionários da Higiene Pública, policiais, sanitaristas e engenheiros dispostos a não deixar nada em pé.

Demolido o cortiço, começou a construção do túnel João Ricardo, que só seria concluído em 1922, ano do centenário da Independência do Brasil. Os jornais da época, que apoiaram a invasão do Cabeça de Porco, consideraram a derrubada uma conquista da civilização contra um valhacouto de vícios, defeitos, barbaridades, pulsões homicidas, desordens, desregramentos, batuques primitivos e similares.

No livro, o cortiço de João Romão acaba sendo devastado por um incêndio. Enquanto o proprietário está rico, os moradores se transferem para outro cortiço, conhecido como “Cabeça-de-Gato”. No lugar do cortiço destruído, surge a Avenida São Romão.

À guisa de conclusão, nada que escorre pelas páginas do livro publicado no final do século XIX está muito distante dos nossos dias. A criminalização da pobreza, o racismo, a dicotomia entre civilização e barbárie, continuam presentes em relação às favelas e comunidades periféricas que, pulsantes de vida, desconfortam o país dos senhores nostálgicos de um mundo observado das sacadas de sobrados e alpendres de casas grandes. O cortiço, 131 anos depois da primeira edição, permanece atual pelos méritos da obra e pelos desacertos e injustiças que continuam assombrando o Brasil.

 

 

*LUIZ ANTONIO SIMAShistoriador, escritor e compositor. Mestre em História Social pela UFRJ, foi vencedor do Prêmio Jabuti de não-ficção em 2016. Assina coluna semanal no jornal O Dia sobre a cultura das ruas cariocas.

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