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APRESENTAÇÃO

Bruna Vieira

Passei boa parte da adolescência revirando os olhos para todo e qualquer livro de época. Lembro bem que ao começar uma nova obra eu buscava, mais do que tudo, me sentir compreendida pelos personagens e pela história. Queria companhia. Eu sentia uma espécie de barreira toda vez que a professora de literatura pedia que eu mergulhasse assim de cabeça em outros tempos. A linguagem, a cultura, os costumes e até os diálogos não eram nada parecidos com os que eu costumava ter com os meus amigos e familiares. Por que querem tanto que eu leia a história dessas irmãs que não param de falar sobre casamento e fortunas?

Foi quando comecei a buscar meu lugar no mundo e entender mais sobre o espaço que ocupo hoje, física e emocionalmente, que entendi e acolhi cada um dos sentimentos de Elizabeth, a protagonista deste livro. É ela que vai te fazer companhia ao longo desta leitura e provavelmente a cada vez que você se apegar demais à primeira impressão que tiver de alguém. Saiba que as próximas páginas vão te guiar para uma história de amor, talvez a maior da literatura, contada de uma forma extremamente sensível e honesta. Um olhar que só Jane tem para os pequenos gestos de cada dia e suas infinitas interpretações, nos fazendo entender de forma gradual a força das consequências do que não controlamos. Orgulho e preconceito foi para mim um convite gentil para pensar mais sobre os sentimentos que eu cultivo para me proteger, mas acabam me afastando do que pode me fazer muito feliz.

No início do século XIX a ascensão social feminina na Inglaterra só era possível por meio do matrimônio, e desafiar esse costume implicaria um processo tortuoso e cheio de incertezas. Ainda assim, Elizabeth, uma jovem moradora da zona rural, decide arriscar-se em busca de sua própria felicidade e liberdade. Apesar do sentimento de rejeição e estranheza depois de um encontro desconfortável com o sr. Darcy, um homem adulado e admirado por todos, Lizzy segue em frente tirando suas próprias conclusões sobre os acontecimentos que movimentam diariamente seu núcleo familiar: as irmãs que se apai- xonam, o pai, sempre conselheiro e confidente, a mãe, que teme pelo futuro das filhas mais do que qualquer outra coisa, o parente distante que pode herdar os bens da família e os pretendentes que vêm e vão a todo instante nos bailes.

 Outro ponto importante é a química entre o casal da história. Acredito que quando alguém nos chama atenção com tanta força, seja positiva ou negativamente, algo dessa pessoa pode existir dentro da gente. É preciso coragem para descobrir o que isso significa e onde pode nos levar. Orgulho e preconceito é sem dúvidas um romance envolvente, e que escancara a necessidade de tirar todas as armaduras que criamos para nos proteger se quisermos realmente conhecer o outro e, consequentemente, nos (re)conhecermos também.

Nos dias atuais, seguimos enfrentando desafios para nos sentir realizados e para nos conectar uns aos outros. É um carinho na alma ler a visão de Jane Austen sobre a importância de cada tipo de amor e sobre como o destino pode – e vai sempre – encontrar um jeito de nos surpreender.

*BRUNA VIEIRA é blogueira, youtuber e escritora. Foi colunista da revista Capricho e é autora dos livros Depois dos quinze, De volta aos quinze, De volta aos sonhos e A menina que colecionava borboletas e das graphic novels Quando tudo começou e O mundo de dentro, com Lu Cafaggi.

Posfácio 01

Jane Austen, mulheres e romances: autoria feminina em prosa e seus desafios

por Jaqueline Sant’ana*

Dos romances do século XVIII aos contemporâneos “chick-lits”, a literatura de autoria feminina traz em suas páginas uma série de questionamentos e transformações sociais relevantes não somente para mulheres, mas para todos aqueles que buscam compreender a humanidade de forma mais abrangente, a partir de perspectivas plurais. Historicamente classificadas como uma literatura “menor”, “de mulherzinha” ou mesmo “de segunda categoria”, essas obras vêm sendo, cada vez mais, percebidas como frutos de uma extensa luta pela visibilidade e pelo reconhecimento das mulheres no campo das artes, não somente como musas inspiradoras, mas como autoras de suas próprias histórias.

Ao longo dos séculos, muito foi dito sobre a capacidade intelectual das mulheres, invariavelmente com um diagnóstico negativo, fundamentado em estereótipos que assimilavam tudo aquilo que é compreendido como “feminino” a irracionalidade, emotividade e inconstância. Se ainda hoje deparamos com discussões acerca da existência ou não de uma literatura de fato “feminina” –– partindo do pressuposto de que haveria alguma espécie de essência da mulher a ser transposta para as páginas de suas obras ––, o mesmo nunca se deu com autores homens, para os quais sempre existiu apenas a “Literatura” como nobre ofício artístico de engenhosidade.

Já em 1929, em palestras realizadas em instituições de ensino exclusivas para meninas, a escritora britânica Virginia Woolf vocalizou questionamentos sobre a invisibilidade feminina em feitos históricos e nas artes. Ampliadas e publicadas como um ensaio intitulado Um teto todo seu, suas reflexões apontam que, sem dinheiro e um teto próprio –– ou seja, sem condições materiais que garantam sustento e independência ––, o fazer ficcional torna-se uma impossibilidade para a mulher, ainda que o “belo sexo” sempre tenha sido objeto de inspiração poética.

Na imaginação, ela é da mais alta importância; em termos práticos, é completamente insignificante. Atravessa a poesia de uma ponta à outra; por pouco está ausente da história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real, era escrava de qualquer rapazola cujos pais lhe enfiassem uma aliança no dedo. Algumas das mais inspiradas palavras, alguns dos mais profundos pensamentos saem-lhe dos lábios na literatura; na vida real, mal sabia ler e escrever e era propriedade do marido.1

A profunda desigualdade de gênero que ainda se faz presente em todas as esferas da vida social nos faz olhar com especial interesse para as escritoras que conseguiram firmar seus nomes no cânone literário em um passado marcado por condições muito mais restritas para as mulheres exercerem sua autonomia e liberdade criativa. Um dos maiores exemplos é a inglesa Jane Austen (1775–1817), que está entre as autoras mais conhecidas do mundo ocidental. Responsável por algumas das obras com maior número de adaptações para o cinema, a televisão e o teatro –– sem contar versões alternativas que exploram outros pontos de vista de seus personagens e diferentes cenários para suas tramas ––, Austen atingiu uma rara posição de prestígio como romancista entre a crítica especializada, e suas obras, originalmente publicadas há mais de dois séculos, continuam sendo reeditadas. Como entender esse fenômeno e quais as contribuições da obra da autora para o fortalecimento de uma literatura de autoria feminina?

O romance e o feminino

Jane Austen inicia Orgulho e preconceito com uma frase que se tornou clássica: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa”. Apesar de amplamente conhecido como uma história de amor, uma espécie de “romance romântico”, este livro trata, basicamente, de dinheiro, racionalidade e virtude moral em uma sociedade em transformação. A inevitabilidade do casamento, temática presente em todos os romances da autora, é o ponto a partir do qual ela evidencia as mudanças e as permanências de sua época, incluindo as novas possibilidades e expectativas sobre a questão de gênero que vinham se consolidando, seus limites e as tensões que emergiam.

Estabelecido como forma literária ao longo do século XVIII, o romance traz inovações indissociáveis do desenvolvimento da modernidade ocidental. A reflexividade dos personagens e o princípio de realismo que norteia essas produções artísticas são indícios de um tipo de narração inédita e verossímil do cotidiano, atrelado a uma noção de autonomia individual que coloca o leitor a par das intenções e percepções dos sujeitos apresentados pela trama. Mais além, em um aspecto fundamental para nossa reflexão sobre mulheres e literatura, o romance se estabelece como bem cultural de uma burguesia em ascensão que define o espaço social da mulher no lar, com o estabelecimento de um culto da domesticidade, da subjetividade e da idealização da figura feminina como um ser frágil, dócil e emotivo. Essa relação é constantemente enfatizada pelos estudos literários, que destacam o caráter “pedagógico” dos romances na formação da subjetividade feminina.

Tal leitura, evidentemente, não engloba recortes de classe e raça. Enquanto a mulher burguesa seguia os ditames de seu estrato social, que buscava legitimação por meio da cultura e do acúmulo de capitais, boa parte do mundo ainda vivia sob o jugo da escravidão e da exploração colonial. Enquanto categoria ociosa e confinada no espaço privado, restou às mulheres socialmente privilegiadas a incorporação de uma educação centrada em habilidades vinculadas ao lar e à vida social, e no desenvolvimento de uma feminilidade que servia, basicamente, para aumentar as chances de conseguir um bom matrimônio e, uma vez dentro de um casamento, agradar ao marido e cuidar das necessidades familiares.

Entre as atividades incentivadas para as jovens da época, a música e a leitura se destacavam como expressão da criatividade e do talento na privacidade do lar, servindo como entretenimento para visitas formais e também como um diferencial no mercado matrimonial. Tal expectativa acerca dos “talentos femininos” é bem exemplificada –– e satirizada –– por Austen ao longo do livro:

​​— Ninguém pode ser considerada verdadeiramente talentosa se não excede os parâmetros encontrados normalmente. Uma mulher deve ter um conhecimento profundo de música, canto, desenho, dança e línguas modernas, para merecer essa palavra, e, além de tudo isso, possuir alguma coisa em sua apresentação e maneira de andar, no tom de voz, no modo de se dirigir a alguém e de se expressar, ou a palavra não será inteiramente merecida.

— Deve possuir tudo isso — acrescentou Darcy — e a esse conjunto deve somar algo mais substancial, aperfeiçoando sua mente com extensiva leitura.

— Não estou mais surpresa por o senhor conhecer apenas seis mulheres talentosas. Agora me admiro por conhecer alguma. (p. 56-57)

A escritora também brinca com algumas atribuições de gênero no modo como apresenta a feliz união entre o sr. e a sra. Bennet, que em diversos momentos da trama praticamente invertem as expectativas de papéis “femininos” e “masculinos”. Sempre abordado com muita comicidade, o esforço ativo e incessante da matriarca Bennet em conseguir bons casamentos para as filhas, com base em cálculos racionais e econômicos, é muito distante do modelo de passividade e emotividade atribuído às senhoras casadas. Da mesma forma, a personalidade despreocupada, bem-humorada e sarcástica do marido destoa do ideal de seriedade e sisudez dos chefes de família daquela época.

Também a forma como a escritora determina quem é a verdadeira protagonista desse romance traz um frescor e uma quebra da conformidade. A personagem Jane, descrita nos primeiros capítulos da obra como a mais bela e bondosa das irmãs Bennet, seria uma escolha certeira para os moldes dos romances escritos até então, que apresentavam o ideal das lindas e inocentes jovens vencendo diversos obstáculos para conquistar o amor. Contudo, quem se estabelece como personagem principal é Lizzy, a irmã de espírito ousado e que inicialmente se destaca por não ser considerada bonita o suficiente para ser tirada para dançar em um baile. O que essa escolha diz sobre os paradigmas femininos da época e o que isso representa para a literatura? 

A economia do romance

A assimetria social e econômica entre o casal protagonista, bem como os desencontros e o sofrimento da mocinha da história e seu inevitável final feliz, são alguns dos principais elementos que compõem as regras tácitas dos romances populares voltados para um público feminino. Jan Cohn2, professora e pesquisadora de Literatura, destacou que a ficção de massa traz histórias de amor profundamente entrelaçadas com o poder, narrando como uma protagonista torna-se socialmente bem-sucedida ao conquistar acesso ao dinheiro, ou seja, ao poder dentro de uma sociedade capitalista. Em uma lógica patriarcal, essa conquista acontece por meio de um “bom casamento”, ou seja, do matrimônio com um homem rico, com propriedades e prestígio. A sutileza dessa construção, porém, reside no fato de que as mocinhas dos romances somente conquistam essa tal felicidade ao agirem de forma desinteressada, afastadas do cálculo econômico que o casamento com um “bom partido” pode trazer para sua vida.

Elizabeth Bennet, a protagonista de Orgulho e preconceito, despreza a ideia de um enlace que não seja motivado pelo amor, e representa o espírito de novos tempos e valores. Seu forte senso de independência a coloca no patamar das mocinhas consideradas “à frente do seu tempo”; ela vai além das convenções sociais e demonstra uma personalidade multifacetada, com virtudes e defeitos – inclusive seu orgulho. Mais do que tudo, torcemos por Lizzy devido ao profundo amor que ela tem pela família (cujo ponto alto é a defesa de sua irmã Jane diante do julgamento preconceituoso do sr. Darcy) e a seu implacável senso de virtude (que a leva a contestar de igual para igual lady Catherine de Bourgh, uma personagem que exemplifica o esvaziamento reverencial que a nobreza tradicional vinha sofrendo naquele período).

Com uma narrativa livre de excessos dramáticos e uma fina ironia que evidencia contradições e dilemas internos dos personagens, Austen elaborou uma trama que reflete não somente os deslocamentos das expectativas em torno das mulheres de sua época, mas também algumas das principais transformações políticas e sociais que vinham ocorrendo em um processo lento, porém contínuo. O pano de fundo de sua obra é uma sociedade na qual o capitalismo industrial começava a se firmar como sistema, levando a uma inevitável exposição e desautorização da nobreza. Os valores que orientavam condutas morais passaram a ser ditados por uma nova classe burguesa, que trazia no mérito e na conduta individual –– e não mais no peso das tradições e da hereditariedade –– seus principais pontos de legitimação.

O desvelamento das pequenas mesquinharias cotidianas, do orgulho das camadas nobres e dos preconceitos de classe coloca em xeque a imagem de respeitabilidade e despreocupação com assuntos de ordem material que as camadas mais abastadas da época buscavam simular. Ao longo de todo o romance, as condutas pessoais parecem descolar-se dos títulos e posições que cada um ocupa naquela hierarquia social, dando espaço para a aristocracia ter comportamentos considerados cruéis, vexatórios ou humilhantes, contrários à antiga dignidade esperada de sua categoria, enquanto indivíduos de classes sociais inferiores se portam com a devida correção moral, preservando sua honra e altivez.

Observando (e negociando com) o mundo por um cômodo

Ao narrar como uma mulher usa casamentos e relações íntimas para se apropriar (ou não) de dinheiro, bens e títulos, Austen escancara as dinâmicas até então veladas de manutenção e reprodução da vida. Sua narrativa gira em torno de assuntos que eram tratados de forma estritamente privada, a portas fechadas, e somente entre homens. Foi principalmente a partir desse jogo de desvelar o cotidiano de forma ácida, trazendo à tona os erros e maus julgamentos que seus personagens cometem, que Orgulho e preconceito garantiu seu mérito como um romance moderno, identificado como um romance de costumes. Esse tipo de ficção realista, consolidado no século XIX, recria o mundo de determinada classe social, com seus costumes, valores e moralidades. Além da própria Jane Austen, outras escritoras notáveis, como Elizabeth Gaskell, Edith Wharton e George Eliot, se destacaram nesse nicho, marcado por agudas observações das dinâmicas sociais, com elaborações narrativas realistas e tramas que giram em torno das expectativas e “boas normas” de comportamento em sociedade.

A partir de seu limitado círculo social, vinculado a uma nobreza empobrecida de um vilarejo rural da Inglaterra, Jane Austen conseguiu observar de forma crítica e astuta as convenções e os múltiplos aspectos da natureza humana que as boas maneiras tentavam ocultar. Sem atacar frontalmente esse “estado de coisas”, a autora expôs as contradições entre normas e práticas em toda a sua obra por meio do humor e da ironia. Tais recursos são acionados pelas protagonistas de seus livros, jovens mulheres dotadas de uma profunda capacidade de percepção e compreensão do funcionamento do mundo ao seu redor, ainda que ele fosse restrito àquilo que circulava nas salas de visitas, bailes ou apresentações na corte. Essas personagens têm consciência de quais são as expectativas sociais em torno de mulheres, quais feminilidades são valorizadas e quais não — uma característica ainda presente nos romances contemporâneos de autoria feminina —, o que indica a possibilidade de agência feminina, ainda que no plano ficcional.

Nenhuma das heroínas das obras de Austen deseja os ideais propagados pelo status quo, e elas demonstram essa postura ao fazer um uso sofisticado da ironia como desestabilizadora sutil das convenções sociais. Por outro lado, certa ambiguidade pode ser notada nesse movimento, uma vez que todas elas se consagraram como mocinhas dessas narrativas por preservar um profundo senso daquilo que é moralmente apropriado, admitindo a virtude como algo a ser valorizado independentemente da origem familiar ou do status econômico.

Se as elaborações temáticas, o estilo e os recursos narrativos adotados garantem a aclamação de uma obra literária junto à crítica, o poder de identificação entre leitores e personagens certamente é uma das chaves para entendermos o sucesso de um romance com o público. A negociação dessa agência feminina, presente tanto nas obras como na biografia da escritora, ressoa até a atualidade como um ponto atravessado por múltiplas tensões, que não se resolve de forma simples. Ao criar diálogos que evidenciam as aspirações de seu tempo e fazer uso de contos de advertência tal como o envolvimento fora do casamento e a fuga de Lydia e Wickham, Jane Austen foi poupada de críticas mais severas ao conteúdo de suas obras. O próprio enquadramento do matrimônio como “destino feminino” ideal pode, inclusive, ser interpretado como uma estratégia de negociação de poder em um contexto abertamente hostil com mulheres contestadoras da ordem vigente, como a escritora e filósofa inglesa Mary Wollstonecraft (1759–1797), responsável pelo até hoje polêmico Uma reivindicação pelos direitos da mulher (1792).

Ocultas entre páginas, fazendo história(s)

Em um contexto marcado por tão poucos direitos garantidos e vontades respeitadas, Austen realizou feitos que poucos conseguiram, ainda que parte deles tenha sido obscurecida pelas convenções patriarcais da época. Filha de um reverendo que também atuava como tutor para jovens rapazes da região de Steventon, desde os onze anos Jane Austen escrevia contos, peças e romances sobre o cotidiano rural da Inglaterra, que lia em voz alta para sua família. O inicial apoio familiar para seu talento intelectual não lhe garantiu acesso ao mesmo tipo de educação que seus irmãos e tampouco evitou que sua carreira como escritora fosse repleta de desafios, tal como a de outras tantas mulheres que seguiram seus passos no campo literário. Austen, que nunca se casou, só conseguiu se livrar da dependência financeira de sua família aos 36 anos, com o sucesso de vendas de seu primeiro romance, publicado anonimamente em três volumes com o título Razão e sensibilidade (1811).

O anonimato e a adoção de pseudônimos masculinos foram as principais estratégias relegadas às mulheres na literatura ocidental ao longo do século XIX. Alguns exemplos são George Sand (Amandine Aurore Lucile Dupin, 1804–1876), Currer Bell (Charlotte Brontë, 1816–1855) e George Eliot (Mary Ann Evans, 1819–1880). Mesmo na atualidade, principalmente nos nichos de aventura, suspense e fantasia, escritoras assinam suas obras como homens ou abreviam seus nomes, como no caso da inglesa J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter. Antes da publicação de seu primeiro livro, Joanne Kathleen foi convencida por sua editora a ocultar seu nome com medo de que meninos não se interessassem pela obra ao notar que ela fora escrita por uma mulher.

Outras vezes, quando conseguem vencer as barreiras do preconceito com a autoria feminina e emplacam obras que se tornam sucessos de vendas, repercutindo junto a um público leitor mais abrangente, algumas escritoras passam a enfrentar um desafio diferente, sendo descartadas pela crítica especializada e pelo campo intelectual como autoras de obras rasas, de consumo fácil, e que não trazem contribuições em termos de forma literária ou experimentação artística. Ainda que esse não tenha sido o caso de Austen, o sucesso financeiro e a aclamação pública de suas obras logo se tornaram uma espécie de demérito para a família, ferindo a idealização de um talento feminino abnegado, restrito aos círculos domésticos.

Após sua morte, a maioria de suas cartas pessoais foi queimada por familiares, num inegável esforço de criar uma imagem pública muito mais dócil e afetuosa para a escritora. Apesar de tentar preservar a subjetividade e o legado de Jane intactos, zelando por seus escritos, até mesmo sua irmã mais velha Cassandra, grande aliada e confidente ao longo da vida, tomou parte nessa empreitada, jogando ao fogo ou ocultando trechos de boa parte das correspondências trocadas com Jane. Seu sobrinho Henry Austen chegou a escrever que a busca pela fama ou pelo lucro nunca fora do interesse da tia,3 elaborando uma narrativa de desinteresse profissional que preservaria uma aura de feminilidade mais próxima do modelo valorizado na época.

Muito do que se sabe sobre a escritora até hoje deriva de um livro de memórias de família escrito pelo sobrinho James Edward Austen-Leigh, A Memoir of Jane Austen (1869). Seguindo a influência vitoriana da época e apresentando o olhar de quem ainda era criança quando conviveu com a tia famosa, a obra deixa de revelar muitas informações privadas interessantes ao leitor, ocultando os possíveis interesses amorosos da escritora, suas influências literárias e mesmo aspectos mais ousados e íntimos de sua personalidade. Até mesmo a aparência de Jane Austen passou por uma “atualização” nesse livro, já que o único desenho que retratava a autora em vida, um esboço em aquarela feito pela irmã Cassandra por volta de 1810, foi alterado pelo pintor James Andrews com o aval familiar, com Jane ganhando traços suavizados, lábios mais volumosos e nariz delicado, além de diversos acréscimos de detalhes em seu vestido e no cenário que não existiam no original –– inclusive uma aliança de casamento dourada na mão esquerda. Essa versão editada serviu como base para todos os seus futuros retratos, inclusive a edição especial da nota de 10 libras britânicas, criada em celebração ao bicentenário da morte da autora em 2017.

Inicialmente assinando suas obras simplesmente como “Uma Senhora”, e dando prova do quão frutíferos podem ser os laços de união entre mulheres através dos tempos, Jane Austen conseguiu tornar-se uma escritora publicada graças à iniciativa de outras mulheres que abriram caminho para isso, criando uma rede de interdependência entre as romancistas de seu tempo, com um novo mercado de ficção domés- tica. Na atualidade, quando os debates em torno da visibilidade e da representatividade feminina na literatura ganham cada vez mais espaço, olhar para as desbravadoras do passado nos ajuda a compreender os anseios e reconhecer os desafios enfrentados por quem veio antes. Que sigamos firmes no propósito de não deixar essa longa trajetória feminina ser novamente invisibilizada, e que seus nomes não voltem a ser ocultados na História.

*JAQUELINE SANT’ANA MARTINS DOS SANTOS é mestre em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ e doutoranda em Ciências Humanas (Sociologia) pela mesma instituição. Vencedora do Prêmio ANPOCS na categoria “Melhor Dissertação” em 2017, é autora do livro Literatura de mulherzinha: gênero e individualismo em romances chick-lit.

1 WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Trad. Vera Ribeiro. São Paulo: Círculo do Livro, 1991. p. 56.

2 COHN, Jan. Romance and the Erotics of Property: Mass-Market Fiction for Women. Durham: Duke University Press, 1988.

3 DIAS, Nara Luiza do Amaral. A razão em Jane Austen: classe, gênero e casamento em Pride and Prejudice. Dissertação (Mestrado). São Paulo: FFLCH-USP, 2015.

Posfácio 02

Uma escultura entalhada em marfim

      Por Sandra Guardini Vasconcelos*

“Li novamente, pela terceira vez ao menos, o bem escrito romance da srta. Austen, Orgulho e preconceito. Aquela jovem tinha um talento para descrever os envolvimentos, os sentimentos e as personagens da vida cotidiana, e isso é para mim o mais maravilhoso. O grande esforço barulhento eu mesmo posso fazer como qualquer outro; mas me é negado o toque primoroso que torna interessantes coisas e personagens comuns e banais a partir da verdade da descrição e do sentimento. Que pena que uma criatura tão talentosa morreu tão cedo!” (The Journal of Sir Walter Scott, 14 de março de 1826)1

Quando faleceu, em janeiro de 1817, aos 41 anos, Jane Austen construíra uma carreira literária discreta. Seus primeiros quatro romances haviam granjeado alguma popularidade e dois outros só viriam à luz postumamente, no final daquele ano. Nenhum deles estampava seu nome na página de rosto, e só por indiscrição de membros da família a identidade da autora tornou-se conhecida. Austen trilhava, dessa forma, o caminho de grande parte das mulheres que ousavam dedicar-se à escrita e participar da esfera pública: o do anonimato, com a concordância de pais ou irmãos, ou sob a proteção de um mentor. Como observa a protagonista de Persuasão, Anne Elliot, “os homens tiveram todas as vantagens em relação a nós no que diz respeito a contar sua versão da história. Eles tiveram uma educação muito mais refinada; a pena sempre esteve em sua mão”.2 Outras escritoras, antes dela, haviam contribuído para forjar uma tradição literária feminina, e a elas Austen prestaria tributo em uma famosa passagem de A abadia de Northanger. Decidir-se a escrever romances e ainda por cima publicá-los significava uma grande audácia. Sem um teto todo seu, nem a renda anual que Virginia Woolf argumentaria, um século depois, serem necessários a fim de que uma mulher pudesse escrever e manter sua independência criativa, Austen tornou a escrita sua atividade de todas as horas.

Jane Austen teve uma existência semelhante à das mulheres de sua época e do seu estrato social. Mas, filha de um pároco, teve acesso a alguma educação e cresceu em um ambiente em que a leitura fazia parte dos hábitos familiares e no qual era comum se entreter com pequenas representações teatrais. Ainda muito jovem, escreveu esquetes, pecinhas burlescas, novelinhas epistolares e aventuras picarescas e se formou como leitora, primeiro sob a orientação do pai3 e dos irmãos e, mais tarde, graças aos empréstimos de um gabinete de leitura. Na sua vida relativamente breve, levou uma existência modesta, circunscrita ao espaço da casa e dedicada aos afazeres domésticos e à família. Sua correspondência contém o relato desse cotidiano, assim como das reuniões sociais, bailes, passeios, viagens para visitar irmãos e sobrinhos e da sua relação de afeto e intimidade com a irmã Cassandra. Com um aguçado senso de observação, um olhar irônico para as falhas, vaidades e mesquinhez humanas, as cartas revelam um espírito crítico afiado, atento aos movimentos da engrenagem social. Do seu canto, Austen ri do mundo, como diz dela Virginia Woolf.4 Nas cartas, na produção juvenil, nos romances, esse é o ânimo que preside um ponto de vista pouco afeito a concessões quando se trata de expor o que se escondia por trás das boas maneiras, da urbanidade e das práticas de sociabilidade que comandavam as relações sociais durante o período regencial (1811–1820).

Quando Mary Wollstonecraft publicou seu Reivindicação dos direitos da mulher, em 1792, Jane Austen tinha dezessete anos. Não há provas documentais de que teria lido essa que foi considerada uma das obras inaugurais da literatura feminista. No entanto, dificilmente Austen teria ficado alheia à repercussão das ideias sustentadas por Wollstonecraft em um contexto em que vinham sendo discutidas melhorias na educação feminina e o lugar e status das mulheres na família. Nesse manifesto, que examina a condição feminina na sociedade inglesa da época e se configura como uma vigorosa defesa da mulher como ser racional e autônomo, do seu direito à educação e à igualdade no casamento, encontramos algumas das marcas que caracterizam a voz narrativa dos romances de Austen. Cada um deles, ao pôr no centro do enredo uma personagem feminina diante dos dilemas do amor e do casamento, advoga posições semelhantes às de Wollstonecraft e investe a romancista no papel de historiadora da sociedade. Cada um deles pode ser lido como uma história do cotidiano e da vida privada, em que os grandes eventos históricos não ocupam o palco, mas são apenas sugeridos como pano de fundo. Ao contrário, o que ganha proeminência aqui são os conflitos de ordem pessoal e o casamento enquanto um campo potencial de tensões. Em uma Inglaterra em processo de significativas mudanças econômicas, políticas e sociais, mas ainda estratificada e hierarquizada, a posse de terras, posição social, dinheiro e direitos de herança eram questões importantes que, não raro, envolviam conciliações incompatíveis entre submissão às expectativas da família e a interesses econômicos e inclinação individual por uma união norteada pelas afinidades e afeto.

Trata-se de escolhas que definem o destino e o futuro — a felicidade ou o infortúnio — de cada uma dessas mulheres imaginadas que protagonizam ou apenas povoam o universo ficcional de Austen. Nesse sentido, são todos romances de educação, pois suas tramas expõem essas mulheres a situações e experiências que proporcionam oportunidades de aprendizado sobre elas mesmas e sobre os outros. Longe de se apresentarem como criaturas perfeitas, as heroínas de Austen são desenhadas como figuras falíveis, cujos equívocos, ideias preconcebidas, imaturidade ou presunção precisam ser apontados por terceiros ou submetidos à autoanálise e corrigidos a fim de que se realize o processo de amadurecimento pessoal. Sua concepção e caracterização lhes conferem notáveis realismo psicológico e complexidade. Emma Woodhouse, a “bela, inteligente e rica” protagonista de Emma, sobre quem Austen teria afirmado que “ninguém, exceto eu mesma, vai gostar muito”,5 é uma curiosa combinação de graça, encanto e perspicácia com vaidade, egoísmo e excesso de imaginação e segurança. Mesmo Anne Elliot, a mais madura e profunda de suas personagens centrais, deve vencer a melancolia e recuperar a autoconfiança para retomar o fio e pôr sua vida em movimento novamente. 

Elizabeth Bennet, a cativante heroína de Orgulho e preconceito, será igualmente vítima de suas imperfeições e erros de julgamento e deverá dar-se conta deles para reconsiderar suas opiniões e superar o que o crítico literário britânico Tony Tanner definiu como certa miopia, isto é, a incapacidade de ver com clareza e nitidez para além das aparências.6 Elizabeth se orgulha da própria inteligência e de sua habilidade para julgar o comportamento e o caráter alheios, mas vai descobrir que também é passível de engano. Seu processo de amadurecimento envolverá aprender a ajustar melhor suas lentes e a não se deixar levar por suas “primeiras impressões”. Esse, aliás, era o título original do romance, cuja redação Austen iniciou durante a década de 1790 e retrabalhou até finalmente publicá-lo em 1813 como Orgulho e preconceito, contendo na página de rosto apenas “By the Author of Sense and Sensibility”.7 Aqui, Austen apura as técnicas que se tornariam sua marca registrada e cria uma protagonista sobre quem escreve à sua irmã Cassandra: “Devo confessar que eu a considero a criatura mais encantadora que já surgiu no prelo e não sei como vou conseguir sequer tolerar aqueles que não gostarem dela”.8

Elizabeth não se enquadra inteiramente no ideal de feminilidade vigente à época de Austen. A romancista desenha nela uma versão alternativa de feminino, que alcança um delicado equilíbrio entre conformidade à conduta esperada das mulheres e pitadas de rebeldia. Irrepreensível do ponto de vista moral, Elizabeth tem liberdade para exibir suas melhores qualidades, que incluem um espírito independente, inteligência, sagacidade e uma ironia zombeteira — nenhuma delas geralmente aceita como um atributo feminino. Nela, Austen apresenta sua tradução do ser racional que Wollstonecraft havia defendido em seu manifesto. A energia, a vivacidade e a racionalidade fazem de Elizabeth um exemplo paradigmático do que a escritora julgava essencial como traços femininos. O quanto, à sua maneira, Austen desafiava certas convenções fica patente no comentário de um conhecido de um de seus irmãos, o qual teria declarado que Orgulho e preconceito “era inteligente demais para ter sido escrito por uma mulher”.

A crítica social em Austen, sutil e indireta, se expressa por meio de uma voz narrativa distanciada e irônica, que não se furta a pôr em cena “a condição precária e dependente das mulheres de poucos meios em um mundo de restrições e expropriação”9 — sem acesso à educação formal ou ao mundo do trabalho, sem direitos de propriedade e de herança, às jovens restava o casamento ou a dependência.

Compreende-se, assim, por que a escolha de um parceiro e o casamento se tornavam tão cruciais na vida das mulheres, a ponto de o enredo dos seis romances de Austen girar em torno dessa matéria. Longe de se tratar de um endosso da romancista à sociedade patriarcal, em um tempo em que as normas sociais e os relacionamentos amorosos eram regulados e codificados e a iniciativa da ação era prerrogativa masculina, Austen explora “temas do desempoderamento feminino”, nas palavras do crítico inglês Tom Keymer.10

Que o casamento desempenha um papel central para certas parcelas da sociedade fica evidente já na célebre frase de abertura de Orgulho e preconceito: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa”. À primeira vista, se poderia pensar que o narrador não apenas compartilha esse ponto de vista como o aprova. Longe de conter a visão autoral, porém, com essa frase inaugural, de tom categórico e floreio retórico, o narrador assume, na verdade, o papel de ventríloquo de uma voz coletiva, ao exprimir não uma verdade universal, mas uma visão provinciana, um conjunto de ideias e atitudes histórica e socialmente particulares. Nela, Austen resume, com uma boa dose de ironia, o pensamento das mães das jovens casadoiras, em busca de um bom partido para as filhas, como é o caso da sra. Bennet, mãe das cinco moças ameaçadas de desamparo e pobreza, na eventualidade da morte do sr. Bennet, se não encontrarem um marido que possa lhes garantir padrão semelhante de vida e a permanência em seu segmento social. A empolgação da sra. Bennet com a notícia da chegada de dois bons partidos nas redondezas, homens solteiros e ricos, é indício dessa mentalidade e constitui o cerne da primeira grande cena do romance — uma divertida conversa entre o sr. e a sra. Bennet, que se encerra com um belo exemplo do veneno do narrador.

Mestra na composição de diálogos — dramáticos, ambíguos, cômicos — que cumprem a função estrutural de apresentar as personagens, lhes dar voz e fazer avançar a ação, Austen recheia o enredo com reuniões sociais, bailes e jantares, pois são as ocasiões que propiciam os encontros, as interações e as danças entre os solteiros. A antipatia inicial entre Elizabeth e Darcy — evidenciada em trocas marcadas pela mais rigorosa polidez — será superada à medida que suas verdadeiras personalidade e caráter vão se revelando por meio da conversa. Sem se preocupar em agradar, sem se assombrar ou se intimidar diante do esnobe Darcy, Elizabeth vai protagonizar cenas deliciosas pelos diálogos espirituosos e cheios de repartee11, que dão a ver seus predicados, independência de pensamento e verve. Reproduzindo os movimentos de aproximação e afastamento característicos das danças do período regencial — boulanger (danças circulares), cotillion (formação quadrada com 8 dançarinos), minueto, English country dance —, a relação de Lizzie e Darcy é marcada pelo movimento de atração e hostilidade, até que o socorro prestado por ele a Lydia e Wickham, a visita dela a Pemberley e, finalmente, a segunda carta dele com o segundo pedido de casamento vencem o orgulho e o preconceito de ambos e preparam o caminho da felicidade para eles.

Do seu canto do mundo — um universo relativamente acanhado e restrito às “três ou quatro famílias em um vilarejo”12 com as quais povoa seus romances —, Austen recria o modo de vida e as relações da pequena nobreza rural, proprietária de terras, e das camadas médias ascendente. A mentalidade destas camadas a autora examina com ironia e com um recurso que um crítico denominou “agressão cômica”,13 isto é, um profundo senso crítico que desmonta a imagem da “doce tia Jane” que alguns de seus descendentes quiseram promover e transmitir para a posteridade. Ao contrário, a leitura atenta dos romances, das situações, da caracterização das personagens e do ponto de vista e linguagem do narrador mostram que Austen não titubeia em dar a ver o que se ocultava por detrás da urbanidade, boas maneiras e polidez que distinguiam as relações sociais de sua época. Quando não é o narrador, são as personagens bem-comportadas, irrepreensíveis em suas vestes no estilo Regência, que desferem farpas, desfecham comentários maldosos ou hostis, principalmente contra aqueles(as) em posição de inferioridade social, tudo sob a mais absoluta aparência de cordialidade.

A condição de dependência e o fato de integrar o mesmo grupo social de que tratam seus romances concedeu a Jane Austen a possibilidade de observar a civilizada ordem social e os costumes e expor suas falhas, tendo a ironia e o sarcasmo como armas. Mesmo que delimitado geográfica e socialmente, seu universo ficcional contém toda uma experiência histórica. Graças à estética minimalista, seus romances são pequenas esculturas nas quais ela lavra a cinzel sua época e inscreve sua visão de mundo, da condição feminina, figurada em uma forma na qual avultam o total controle da estrutura narrativa, a precisão na caracterização das personagens, a articulação de uma voz e a construção de um ponto de vista. Austen tinha plena consciência de que fabricava biscoito fino. Nas raras vezes que se refere à sua atividade como escritora, em sua correspondência, registra com completo desassombro: “Não escrevo para elfos obtusos que não têm em si muitíssimo engenho”.14 Austen exige leitores inteligentes e seria um equívoco ler seus romances como histórias românticas ou escapistas, só porque tratam de amor e casamento. Seu conteúdo crítico e agudeza se mantiveram afiados, não perderam o frescor e ainda hoje nos permitem espiar pelas frestas do tempo e aprender com suas pequenas esculturas entalhadas em marfim.

 

*SANDRA GUARDINI VASCONCELOS é professora titular de Literatura Inglesa e Comparada da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora 1A do CNPq. É autora de Puras misturas: estórias em Guimarães Rosa, Dez lições sobre o romance inglês do século XVIII e Formação do romance inglês: ensaios teóricos. Recentemente, co-organizou Comparative Perspectives on the Rise of the Brazilian Novel, com Ana Cláudia Suriani da Silva.

1 Quando não indicado, as traduções são de minha autoria.

2 AUSTEN, Jane. Persuasão. Trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 204.

3 Estima-se que a biblioteca do pai, a primeira a que Jane Austen teve acesso, tinha mais de quinhentos livros. Ver GRUNDY, Isobel. “Jane Austen and Literary Traditions”. In: COPELAND, Edward & McMaster, Juliet (eds.). The Cambridge Companion to Jane Austen. Cambridge: Cambridge University Press. p. 189. Nesse texto, Isobel Grundy comenta as leituras e alusões de Austen nos romances e correspondência.

4 WOOLF, Virginia. “Jane Austen”. In: The Common Reader. First Series. New York: Harcourt, 1984. p. 136.

5 AUSTEN-LEIGH, James Edward. A Memoir of Jane Austen and Other Family Recollections. Oxford: Oxford University Press, 2008. p. 119. “I am going to take a heroine whom no one but myself will much like.”

7 Observe-se que, na língua inglesa, a palavra “author” não revela o gênero do(a) autor(a), garantindo assim o anonimato de Austen.

8 AUSTEN, Jane. Jane Austen’s Letters. Ed. Deirdre Le Faye. Oxford: Oxford University Press, 1997. p. 201. Carta a Cassandra Austen, datada de 29 de janeiro de 1813: “I must confess that I think her as delightful a creature as ever appeared in print, & how I shall be able to tolerate those who do not like her at least, I do not know”.

9 KEYMER, Tom. Jane Austen: Writing, Society, Politics. Oxford: Oxford University Press, 2020. p. 50.

10 Idem, p. 53.

11 Sucessão ou troca de réplicas inteligentes; batalha verbal leve e divertida.

12 AUSTEN, Jane. Jane Austen’s Letters, p. 275. Carta para a sobrinha Anna Austen, datada de 9 de setembro de 1814: “— three or four Families in a Country Village is the very thing to work on”.

13 WATT, Ian. “Jane Austen and Comic Aggression”. In: The Literal Imagination: Selected Essays. Palo Alto: The Society for the Promotion of Science and Scholarship; Stanford: The Stanford Humanities Center, 2002. p. 159-170.

14 AUSTEN, Jane. Jane Austen’s Letters, p. 202. Carta para Cassandra, datada de 29 de janeiro de 1813: “I do not write to such dull Elves”/ “As have not a great deal of Ingenuity themselves”. Austen reescreve aqui o par de versos de Sir Walter Scott em Marmion (“I do not rhyme to that dull elf, / Who cannot image to himself ”).

 

Posfácio 03

 

Amor ardente da literatura e do cinema

    Por Isadora Sinay*

 

Em 2013, bicentenário da publicação de Orgulho e preconceito, uma enorme estátua surgiu no Lago Serpentine, bem no meio do Hyde Park, em Londres. Feita de fibra de vidro e com mais de três metros de altura, a instalação representava o ator Colin Firth no papel de sr. Darcy, como visto na adaptação do romance feita pela BBC em 1995: saindo do lago com sua camisa branca molhada e transparente.

A adaptação da BBC não foi a primeira do romance, mas é provavelmente a mais famosa. Mencionar Jane Austen é certamente evocar imagens de belas casas de campo inglesas, figurinos impecáveis da regência e, sobretudo, a trama do casamento, esse percurso cheio de reviravoltas que uma heroína deve trilhar para casar-se com seu amor verdadeiro.

A trama do casamento se tornou imensamente popular em romances dos séculos XVIII e XIX, sobretudo porque ela oferece uma reconciliação de forças que agiam de maneiras opostas no destino das mulheres: o amor e a conveniência, ou melhor, o desejo e a restrição social. No mundo em que se passam os romances de Austen, jovens mulheres eram, em última instância, propriedades: impedidas de herdar terras ou ter qualquer independência financeira, seu destino era determinado pelos homens que poderiam se beneficiar dos matrimônios planejados para elas. Nesse cenário, a melhor chance de felicidade era a perfeita coincidência que Austen sempre permite a suas heroínas: um homem solteiro, em posse de boa fortuna, à procura de uma esposa, mas que também seja agradável e atraente.

Esse arranjo narrativo parece inocente e mesmo clichê, mas se apoia em uma ideia revolucionária: a de que jovens mulheres desejam. Esse desejo é sem dúvida por um homem bom, compreensivo, agradável, que seja uma boa companhia com quem elas tenham o que conversar, mas é também o desejo físico, a atração sexual. Nos romances de Austen, frequentemente homens “sem graça” em termos de conversa e aparência são dispensados, enquanto perigosos e belos sedutores ameaçam o final feliz das protagonistas. Embora sempre velado (Austen nem mesmo se permite o reconhecimento simbólico dado a ele por outras escritoras, como as irmãs Brontë), o sexo, ou pelo menos um primeiro estágio de atração sexual, está sempre presente e é validado pela autora.

Marianne Dashwood, personagem de Razão e sensibilidade, talvez seja a mais carnal das heroínas de Austen. Sua paixão pelos poetas românticos e a o caráter físico de seu sofrimento certamente são o mais próximo que a escritora chegou do erótico. Elizabeth Bennet, porém, é a mais observadora, e o ato de observar é um elemento central da constituição das personagens femininas como seres que desejam.

Lizzie frequentemente observa todos ao redor e avalia seus pretendentes com o olhar de alguém que é sujeito, agente das próprias escolhas. Elizabeth Bennet não é um bibelô a ser olhado, um objeto, como o imaginário tradicional quer ditar que as mulheres sejam. Ela é alguém que olha. Na televisão, alguém que olha sr. Darcy sair do lago com sua camisa branca molhada e transparente.

Essa cena, famosa até para aqueles que talvez não tenham visto a minissérie, reúne todos os elementos que explicam a poderosa atração de Austen sobre o público feminino e em parte o eterno retorno de adaptações de sua obra, tanto nas páginas como nas telas. Austen leva as mulheres (personagens e espectadoras) a sair de seu lugar de objeto olhado para ocupar o lugar de sujeito, ao mesmo tempo em que lhes permite permanecer no campo seguro do sexo intermediado pelas normas da boa conduta. Sr. Darcy afinal não está nu, mas ainda vestido com uma camisa transparente.

Um efeito similar recai sobre as outras adaptações: a imagem mais popular da adaptação de Orgulho e preconceito dirigida por Joe Wright em 2005 é a sequência em que Darcy, mais uma vez molhado, mas agora por uma chuva torrencial, declara amar Elizabeth “ardentemente”. O signo óbvio da chuva, o efeito das roupas molhadas que grudam no corpo, a intensidade dos atores e o advérbio usado, “ardentemente”, evocam mais uma vez a dimensão física do amor e o desejo sexual claro que fazem de Darcy e Elizabeth um dos casais preferidos da literatura mundial.

O apelo das protagonistas de Austen, senhoras de si em um contexto tão hostil à autonomia feminina, e a atração subentendida que nos faz acreditar tão profundamente nesses casais talvez expliquem por que o aspecto romântico da obra de Austen é tão dominante nas adaptações audiovisuais. Outras características marcantes de sua obra, como o humor e a crítica de costumes, se tornam secundários no cinema e nas séries. A maior parte das adaptações de Austen são filmes e séries encaixados nas categorias de “drama” e “romance”, pouquíssimos são engraçados ou se ocupam com o elenco de personagens secundários que Austen com frequência emprega para criticar de forma bem-humorada a sociedade em que suas protagonistas circulam.

No entanto, algumas exceções a essa regra são notáveis: a mais recente é a adaptação de Emma, lançada em 2020 e estrelada por Anya Taylor-Joy, que assume um tom abertamente cômico e foca na jornada de caráter da protagonista mais do que em sua descoberta do amor. Mas a adaptação mais fiel ao espírito crítico da autora e a seu olhar clínico para as hipocrisias da sociedade é também a mais paradoxal: o filme As patricinhas de Beverly Hills, de 1995.

Uma releitura de Emma, o filme adapta com precisão as falhas de caráter da protagonista e de seu círculo social, e, embora apresente um enredo romântico, o foco da narrativa e da comédia é a crítica de costumes. Há ainda outro aspecto da obra de Austen que aparece nesse filme, mas está ausente de boa parte das versões cinematográficas: o entendimento que ela tem do amor como algo diretamente ligado à razão.

Apesar de ter seus romances publicados no início do século XIX, Jane Austen é em espírito fundamentalmente uma escritora do século XVIII, o século das luzes e do racionalismo, período em que o padrão estético e de comportamento prezava pelo equilíbrio e pela ausência de destemperos. Nesse âmbito, ela é uma mulher de seu tempo, e delineia um retrato do amor que responde a essa visão de mundo. Em seus livros, o caminho da felicidade não é a paixão pura perseguida por Marianne Dashwood ou Lydia Bennet — a atração física não temperada pelo racional leva a homens sedutores, mas instáveis, como Willoughby e Wickham. Nas histórias de Austen, é a junção de uma faísca do incontrolável com uma avaliação sensata do caráter, do temperamento e das características de um pretendente que leva aos bons casais de sua obra, como Lizzie e Darcy, Jane e sr. Bingley, Eleanor Dashwood e Edward.

Em As patricinhas de Beverly Hills há um processo semelhante. Ao som da canção de Céline Dion “All By Myself ”, a protagonista Cher Horowitz analisa racionalmente sua própria história e conclui, como quem resolve um problema de matemática, que está apaixonada por Josh. Há aqui pouco da paixão impulsiva que nossas noções modernas de romance valorizam e que acabam sendo a tônica em outras adaptações.

É provável que isso aconteça para que os filmes deem conta de uma noção mais contemporânea de amor, mais determinada pelo erótico e o imediato porque menos atrelada às decisões práticas da vida. Para as protagonistas de Austen, um casamento determina toda sua existência; já para suas espectadoras contemporâneas, o divórcio é sempre uma possibilidade. Considerando essa diferença, é curioso que os romances da escritora tenham se tornado uma base para a comédia romântica moderna, um gênero que pode ser facilmente definido como uma releitura da tão famosa trama do casamento.

Por exemplo, um dos recursos mais usados nesse gênero de filmes é a narrativa chamada de “de inimigos para amantes”, na qual um casal se odeia, frequentemente por conta de um mal-entendido, mas conforme passam tempo juntos e desfazem as percepções erradas notam que são feitos um para o outro e terminam unidos e felizes. Ou seja, a história de Orgulho e preconceito. De certa forma, esses livros do século XIX podem se tornar o modelo para o romance cinematográfico moderno justamente porque Austen reconhece suas protagonistas como agentes da própria vida e seres movidos pelo mesmo tipo de atração que ainda sentem as mulheres contemporâneas. No entanto, em termos de forma, é também mais do que isso, uma vez que as obras fazem da corte e do jogo de sedução e afeto seu material, mas terminam precisamente na hora do casamento. Isso provavelmente ocorre em Austen porque, uma vez casadas, há muito pouca liberdade de movimento — geográfico ou emocional — para suas protagonistas; acaba o material do romance. Por outro lado, nos romances modernos é necessário que as histórias acabem no casamento (ou no primeiro beijo) justamente porque a liberdade de movimento coloca em risco qualquer final feliz além disso. Toda comédia romântica termina com um casal se juntando, mas não se sabe se todos estariam juntos dali um mês.

Um outro exemplo que traz o humor para o centro da narrativa é a websérie The Lizzie Bennet Diaries. Criada por Hank Green e Bernie Su em 2012 e transmitida em um canal do YouTube, a série conta a história de Orgulho e preconceito na forma de vlogs narrados por uma Lizzie Bennet contemporânea e adolescente. A adaptação usou com maestria o conhecimento que seu público já possuía da história original, criando o humor em cima dos erros de seus protagonistas e focando na crítica de costumes e no retrato ácido que Austen faz de falhas de caráter.

O tamanho da presença de Jane Austen na cultura pop, junto com sua persistência, é impressionante. As adaptações para o cinema, televisão e, como visto, internet são incontáveis, e um passeio por sites de vendas online mostra que todo tipo de item, de velas a chá, de meias a livros de receitas, é vendido com a marca da escritora. Seu nome se tornou sinônimo de um universo com o qual muitas de suas leitoras sonham: o mundo das mansões inglesas, vestidos de época e chás da tarde. A discreta revolução da escritora, ao transformar mulheres de objetos em sujeitos, permitiu que esse mundo se tornasse um universo de sonho e romance, em vez de um mundo que oprime mulheres.

A atração da trama de Austen e de seu cenário é tanta que os mesmos romances deram origem à comédia romântica urbana moderna (é possível pensar no filme Harry e Sally: feitos um para o outro como uma versão de Orgulho e preconceito) e ao romance erótico de época (a série Bridgerton tem o exato gosto de uma espiada no que acontece dentro dos quartos de Pemberley). É possível que em certa medida as expectativas sociais e mercadológicas em relação a narrativas protagonizadas e dirigidas para mulheres tenham afastado das telas o aspecto mais crítico da autora. Afinal, romance e final feliz vendem mais. Mas o olhar crítico de Austen reemerge aqui e ali. Às vezes, na forma inesperada de uma comédia adolescente.

Hoje, é impossível ler um livro como Orgulho e preconceito sem o conhecimento prévio dos tropes do gênero, de forma que o desenrolar da trama e do relacionamento dos personagens nos parece pré-ordenado pelas leis do clichê, que na verdade foi essa obra que criou. Assim, Jane Austen é ao mesmo tempo a inventora de todo um gênero e limitada por ele, um monumento de si mesma, o qual às vezes obscurece sua própria obra.

Nada disso chega a ser um problema, ou a apagar o prazer genuíno de um romance como Orgulho e preconceito. Há algo também de transgressor nesse encontro com a matriz, em conhecer em primeira mão a matéria da qual são feitos tantos sonhos românticos de tantas mulheres e tantos clichês de filmes. Jane Austen morreu em 1817, e em 2021 uma adaptação de Emma foi indicada a Oscars de figurino e de direção de arte, enquanto está sendo preparada uma nova versão de Persuasão (sua obra menos adaptada, de forma curiosa, embora compreensível). É possível afirmar com uma considerável certeza que ainda surgirão muitas versões de Orgulho e preconceito, assim como muitas comédias românticas que imitam sua trama. Jane Austen é uma mulher do século XIX e uma gigante da cultura pop. É só perguntar a Colin Firth e a sua estátua de três metros de altura.



*ISADORA SINAY é formada em cinema e doutora em literatura pela USP. Trabalha como professora, tradutora e escritora.

Posfácio 04

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