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Lançado em 1900, o livro O Mágico de Oz promoveu uma reviravolta ao mostrar que existem lugares extraordinários capazes de amenizar as dores de vidas ordinárias. A adaptação cinematográfica de 1939 escolheu um recurso icônico para ilustrar isso, ao contrastar um Kansas em sépia com o universo tecnicolor de Oz. Não é à toa que movimentos questionadores do status quo e revolucionários da ciência tenham tomado esse universo fantástico como uma de suas inspirações e representações, como foi o caso da psicodelia.

Um dos maiores movimentos políticos e culturais do ocidente no século XXI, a psicodelia deve muito ao psicólogo Timothy Leary, que, acreditando nos potenciais de cura e transformação dessas substâncias, contribuiu para que os psicodélicos transbordassem dos laboratórios para as ruas. Mas para que Leary pudesse correr, Dorothy teve que andar por uma tortuosa estrada de tijolos amarelos com seus sapatinhos de prata (não de rubi). 

“Antes de o ácido [lisérgico] atingir a cultura estadunidense, até rebeldes como Thoreau, Emerson e Whitman implicitamente acreditavam em algo como uma autoridade dada por Deus. A autoridade, todos concordavam, derivava de um sistema no qual Deus ou o pai (ou, mais frequentemente, ambos) estava no topo e nós estávamos na base”,[1] escreveu John Perry Barlow, músico da banda Grateful Dead, no prefácio do livro Birth of a Psychedelic Culture. No texto, Berlow reforça a ideia de que os psicodélicos viraram a sociedade de cabeça para baixo, sugerindo que o real motivo para sua proibição sempre foi político, e não científico.

Com a política de Guerra às Drogas, instituída por Richard Nixon em 1971, o então presidente estadunidense decidiu colocar os psicodélicos na lista das substâncias mais perigosas, mesmo que seus níveis de toxicidade e dependência sejam muito baixos. A medida proibiu não só o uso, mas também as promissoras pesquisas na área da saúde mental que pululavam nas décadas de 1950 e 1960, inclusive no Brasil. Para isso, o governante se valeu de uma intensa propaganda negativa que em nada correspondia com os fantásticos achados clínicos que buscavam compreender a consciência e os mecanismos de cura para transtornos como a dependência química.

Só a partir dos anos 2000, o estigma de “doidão” começou a ser dissolvido, permitindo que os cientistas pudessem voltar a estudar esses expansores da mente. Em 2023, por exemplo, pesquisadores divulgaram a imagem mais detalhada já feita do cérebro humano sob o efeito de um psicodélico (no caso, a dmt da ayahuasca). E o que eles descobriram pode ser comparado ao espanto de Dorothy ao perceber que seu mundo não era mais monocromático.

Em uma entrevista ao Guardian, o influente neurocientista Robin Carhart-Harris, que participou do estudo, definiu assim: “As pessoas descrevem a experiência como se deixassem este mundo e entrassem em outro, que é incrivelmente envolvente e ricamente complexo, às vezes sendo habitado por outros seres que os sujeitos sentem como se pudessem ter um poder especial sobre eles, como deuses”[2]. Segundo o estudo, a dmt provoca um impacto profundo nas regiões de “nível superior” do cérebro, como a imaginação, estimulando inúmeras conexões entre áreas que não se conectavam antes, o que indicaria o triunfo da anarquia mental sobre a lógica cartesiana. Não soa estranho, portanto, que o visual da vizinhança de Oz, com seus macacos alados, papoulas assassinas e cidades de porcelana, tenha servido tão bem a um movimento que questiona a ordem das coisas, como a psicodelia. 

As antenas do escritor estadunidense Ken Kesey captaram isso. Considerado uma figura chave na transição entre os beats da década de 1950 e os hippies dos anos 1960, o autor do aclamado Um estranho no ninho organizava eventos de celebração ao LSD que se tornaram mitológicos. Eram os acid tests. “Os acid tests eram atos de revolta cultural, espiritual e psíquica, e sua relevância para muito do que veio na sequência — o surgimento da comunidade e da cultura hippie, o crescimento e a importância do Grateful Dead e o próprio destino de Kesey — não pode ser subestimada”, escreveu Mikal Gilmore, no perfil A grande viagem americana de Ken Kesey.[3] Anos depois, em 1994, o autor publicaria a peça Twister, uma crítica social apocalíptica que se passa na Terra de Oz.

Mas é possível que as maiores pegadas dos sapatos de Dorothy tenham sido feitas na música. Em 1995, o jornalista Charles Savage escreveu um artigo apontando semelhanças entre o filme O Mágico de Oz e o álbum The dark side of the moon, um clássico do Pink Floyd, grupo pioneiro do psicodelismo. Ao colocar o álbum para tocar a partir do terceiro rugido do leão da MGM, as sincronias que se apresentam entre as imagens da tela e o som da banda são tantas que é difícil de acreditar que se trata de obra do acaso. Assim, The dark side of the rainbow, como ficou conhecido esse cruzamento lisérgico, acabou se tornando uma espécie de ritual de iniciação informal para qualquer um que queira se aventurar por caminhos psicodélicos. Não importa que os integrantes da banda neguem veementemente qualquer associação.

Mas não é só a estética surreal. A própria trajetória de Dorothy se assemelha a uma experiência psicodélica clássica, algo que certamente não passou despercebido pelos psiconautas nestes últimos cem anos. Quando as experiências são guiadas, a exemplo do que acontece nas cerimônias com ayahuasca, o curso tortuoso da estrada de tijolos amarelos, que vai do céu ao inferno, lembra o caminho que os adeptos do chá percorrem para dentro de si mesmos. O Grande Mágico e a Bruxa Má, nesse caso, são a própria mente.

Mesmo quando descobrimos que Oz não passa de um farsante, a mente nos faz questionar. No maior estudo sobre depressão já feito com ayahuasca, por exemplo, pesquisadores do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, deram a bebida de origem amazônica a 14 pessoas com depressão grave, e placebo a 15 pessoas com o mesmo transtorno. No primeiro grupo, 9 apresentaram melhoras significativas sete dias depois da experiência; no segundo, 4 melhoraram. O resultado reforça o valor terapêutico do chá. Mas não deixa de ser surpreendente que quatro pessoas com uma condição grave também tenham se beneficiado dos efeitos positivos da bebida só por acharem que a estavam consumindo. É por isso que, na ciência psicodélica, o efeito placebo não é desprezível. Ele revela outros mistérios sobre a mente.

O Grande Mágico de Oz nos força a encarar a mesma questão, já que, mesmo sendo um “impostor”, é ele quem faz o Homem de Lata, o Espantalho e o Leão Covarde enxergarem suas potencialidades, apenas ajustando suas percepções. Ou seja, ele alcança o resultado desejado, mas não através de mágica. É exatamente nisso que consistem os valores terapêuticos dos psicodélicos. No tratamento de transtorno de estresse pós-traumático com mdma, por exemplo, as pessoas “relaxam” o cérebro a ponto de se sentirem confortáveis o suficiente para falar com seus terapeutas sobre os traumas mais horríveis pelos quais já passaram, muitas vezes revivendo-os, e, só assim, dando um novo significado (ou um coração, ou um cérebro ou coragem) aos seus fantasmas. Nesse sentido, além de um mágico ruim e um homem bom, Oz poderia ser também um ótimo psicoterapeuta.

No fim da história, Dorothy descobre que a solução para seus problemas estava literalmente aos seus pés, apenas esperando que ela vivesse todas as experiências necessárias para adquirir esse conhecimento. A menina precisou correr riscos e se aventurar em um lugar além do arco-íris para descobrir seus limites, seus desejos e sua potencialidade. O escritor Aldous Huxley conclui algo parecido no seu famoso relato sobre o uso de mescalina (composto ativo do cacto peiote), As portas da percepção: “Mas o homem que torna a entrar pela ‘porta da muralha’ nunca será exatamente igual àquele que por ela saiu. Será mais sábio, mas menos presunçoso; mais feliz, mas menos autocomplacente; mais humilde no reconhecimento de sua ignorância, mas também mais bem equipado para compreender a relação entre as palavras e as coisas, entre o raciocínio sistemático e o Mistério insondável que, sempre em vão, ele tenta compreender.”[4]

Há, no entanto, uma diferença abissal em como o livro e o filme encontram seus desfechos. Enquanto, nas telas, Dorothy desperta da aventura em sua cama, como se tivesse tido um sonho ou um delírio de febre, no papel não restam dúvidas de que o encontro com a Terra de Oz ocorreu. Essas duas formas contrapõem os modos como os psicodélicos foram entendidos no começo das pesquisas, entre 1940 e 1950, e o que se entendeu depois.

No início, quando ainda eram conhecidos como “psicomiméticos”, acreditava-se que os psicodélicos mimetizavam os efeitos da esquizofrenia, reproduzindo alucinações e “psicoses temporárias”, como diziam os pesquisadores da época. Mas isso estava incorreto. Apesar de poderem estimular crises em pessoas que já tenham o diagnóstico de esquizofrenia, os psicodélicos clássicos (LSD, ayahuasca, cogumelo mágico e peiote) não reproduzem os efeitos do transtorno em pessoas saudáveis. Os estímulos visuais obtidos sob o efeito dessas substâncias não são classificados como “alucinações”. Logo, o termo “alucinógeno” para se referir aos psicodélicos é impreciso. As alucinações acontecem quando os sentidos da pessoa se confundem, e ela percebe como real algo que não existe de fato. Já sob psicodélicos, a pessoa tende a perceber que o que “vê” não é real, sendo capaz de fazer uma distinção melhor entre o que existe no plano material e o que está na mente.

Para muitas etnias indígenas que fazem uso tradicional de ayahuasca, como os Huni Kuin e os Yawanawá, da Amazônia brasileira, as visões obtidas sob efeito do chá não são meras “viagens”. Apesar de não serem corporificadas ou materiais, elas constituem parte integrante da realidade. São, portanto, tão reais quanto algo que se pode pegar com as mãos. Mas habitam outro nível de percepção. Para a nossa cultura ocidental, que supervaloriza a razão em detrimento das subjetividades, questões como sonhos, intuições e visões não devem ser consideradas fontes confiáveis de aprendizado. O problema é que, ao pensarmos desta forma, estamos alçando a cultura ocidental como a única forma possível de interpretar o mundo, reproduzindo um modelo colonizador de pensamento. No fundo, contanto que Dorothy tenha absorvido os valores da amizade, da coragem e do conhecimento, pouco importa se sua aventura é classificada como real ou não.

Assim como o Grande Mágico, a obra escrita por L. Frank Baum se apresenta sob diferentes aspectos para cada um de seus súditos. Para o escritor indiano Salman Rushdie, ela é um hino aos imigrantes. Para o romancista estadunidense Gore Vidal, uma metáfora contra a ordem puritana. E para todos os psiconautas que trilharam a estrada de tijolos amarelos, O Mágico de Oz é a própria experiência psicodélica.

Nathan Fernandes é jornalista e escritor. Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog (2016 e 2018), escreve para Veja, Folha de S.Paulo e UOL; integra o grupo de pesquisas psicodélicas ICARO, da Unicamp, é editor do portal Ciência Psicodélica e criador do projeto PunkYoga.


[1] DASS, Ram e METZNER, Ralph. Birth of a Psychedelic Culture. Santa Fe: Sygergetic Press, 2010. Tradução minha.

[2] SAMPLE, Ian. Psychedelic brew ayahuasca’s profound impact revealed in brain scans. The Guardian, 2023. Tradução minha.

[3] GILMORE, Mikal. Ponto final: crônicas sobre os anos 1960 e suas desilusões. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[4] HUXLEY, Aldous. As portas da percepção e Céu e Inferno. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015.

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