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Dickens morreu? Então quer dizer que o Papai Noel também vai morrer?

A autora dessa melancólica pergunta foi uma menina pobre que vendia frutas em Drury Lane, enquanto ouvia a rainha lamentar a morte de Charles Dickens do alto do castelo de Windsor. A anedota póstuma evidencia a popularidade que o autor alcançou em vida: Dickens e sua obra circularam entre todas as classes sociais, um feito inédito para uma sociedade tão desigual como a Inglaterra do século XIX, a chamada era vitoriana. A fala nos mostra também a ligação íntima forjada entre Dickens e o período natalino, que legou a ele a alcunha de patriarca do Natal.

Mas, afinal, Charles Dickens foi mesmo o inventor do Natal?

Já adiantamos que a resposta é não, definitivamente não. Mas ele teve um papel quase tão importante: em um contexto em que a festa era vista como uma celebração decadente e havia até sido proibida pela Coroa, Dickens foi um dos grandes responsáveis por trazer a data de volta à vida. O que se pode dizer, e isso com certeza, é que Charles Dickens é o inventor do Natal como o conhecemos hoje.

Para perceber que o Natal já era um festival popular, basta observar o enredo de Um Conto de Natal. Scrooge, o avarento homem de negócios que detestava o Natal, é colocado como o personagem central justamente em função do seu desajuste ao espírito natalino. Ele passa, então, por uma jornada de correção de caráter ao longo da trama.

Como, para Dickens, a literatura tinha o objetivo de melhorar a realidade, e não apenas retratá-la, a mudança de personalidade de Scrooge diz muito sobre os valores compartilhados naquele momento. Afinal, se todos fossem como ele e desprezassem a festa, Um Conto de Natal provavelmente teria sido lido com desconfiança e escárnio. Mas não foi esse o caso — as histórias de Natal de Dickens viralizaram e o público as recebeu não como peças literárias, mas como algo mais semelhante à política ou ao noticiário em geral.

É verdade, porém, que não era toda a sociedade inglesa da era vitoriana que compartilhava desses valores. O Natal ainda era um festival popular entre as classes trabalhadoras, mas considerado brega pela gentry. O imaginário popular preservava o Natal em sua forma feudal, como era celebrado na Idade Média: tempo de abrir as portas para a vizinhança, de união entre artesãos e plebeus, de entoar canções típicas e de se fartar em uma ceia comunitária. Sua origem rural foi fatal para o seu destino com a chegada da Revolução Industrial: a nova ordem social, pautada não pela convivência campesina, mas pelo isolamento urbano, condenou o Natal como um festival ultrapassado e cafona. O governo dos cristãos puritanos ainda chegou a proibir a celebração, pois não encontrava respaldo bíblico para a festa e a associavam ao paganismo e à idolatria.

Uma transformação do Natal

A chave que Charles Dickens encontrou para reviver esse festival que lhe evocava tamanha nostalgia foi adaptá-lo ao novo tempo de acumulação capitalista na sociedade inglesa. De fato, o Natal de Dickens significava pinheiros e presentes, não a ressurreição dos mortos ou a visita de pastores. Dickens criou a iconografia pop do Natal e, apesar das fortes críticas de seus contemporâneos, sua reputação como o profeta das festas de fim de ano se alastrou.

Ilustração colorida de pessoas celebrando o natal em conjunto.
Um dos comentadores da época, sobre a secularização do Natal em Dickens: “Ele colocou tanta bebida e comida, e então ele cristianiza o comer e beber, numa tentativa de transformar o estômago em um órgão da alma.”

Mas, para além dos rituais da noite do dia 24, a maior contribuição de Dickens para a data foi a sua nova filosofia. Charles Dickens transformou o Natal em uma festa de família, ajudando na criação do ideário da vida doméstica e de seus novos valores. A ênfase na confraternização e na generosidade e a condenação à avareza de Scrooge podem ser compreendidas como parte do zeitgeist, do espírito do tempo em que vivia. O conceito de cultura deixava de ser entendido como auxiliar para descrição de costumes — ex. cultura dos camponeses — e passava a ser compreendido como uma coisa em si mesma, próxima à noção que temos hoje.

Nesse sentido, propagava-se a ideia de que as pequenas ações tomadas em meio a uma comunidade seriam capazes de alterar a sua cultura e tecido social — fossem elas boas ou más. Os valores do Natal surgem, então, como uma nova “verdade” acerca da bondade e comunhão, potencialmente capazes de unir indivíduos de todas as classes e apagar as diferenças entre eles.

Um novo público, uma nova estética

Não bastaria ter todo esse projeto literário sem uma estratégia para atingir o público certo. Por saber do desprezo dos intelectuais pelo Natal, Dickens se endereçou a um público novo no mercado cultural, de trabalhadores e artesãos, utilizando uma linguagem com a qual eles pudessem se identificar. Sua dedicação à inclusão cultural rendeu-lhe um profundo desprezo por parte da academia e um rol de críticas ilustres.

Henry James o chamou de “o melhor entre os romancistas superficiais” e E. M. Forster o acusou de só criar personagens planas. Virginia Woolf disse que se transformaria alegremente no gato de Shakespeare para desfrutar da sua convivência, mas que sequer atravessaria a rua para encontrar Dickens. E Aldous Huxley criticou a “vulgaridade e superficialidade” em sua obra. Até a metade do século XX, houve muita relutância para incluir Dickens no panteão dos grandes autores — a despeito de sua popularidade e, para alguns, em função dessa popularidade.

A rejeição à obra de Dickens mostra que sua contribuição mais radical para as políticas culturais foi sua prática estética — e, em especial, sua predileção pelo melodrama. Esse gênero é aquele que supre a definição que Oscar Wilde deu da ficção: os bons têm finais felizes; os maus, finais infelizes. Ainda que fosse a forma mais popular de entretenimento teatral do século XIX — e que mais pessoas tenham ido ao teatro nesse século do que em qualquer outro período — , o melodrama era solenemente ignorado pelas elites intelectuais. Ou melhor, a popularidade do gênero era precisamente o motivo de seu desprezo.

Dickens insistia em uma estética anti-intelectual como arma contra o elitismo, desejando subverter as empoeiradas hierarquias de conhecimento já estabelecidas. Ao escrever para parcelas desprivilegiadas da sociedade, forçou a “intelligentsia” a reconhecer os membros dessas classes como sujeitos de cultura, mudando o status quo do mercado artístico da época. Afinal, todos os grandes autores citados acima foram obrigados a ler sua obra antes que pudessem erguer as mangas para criticá-la.

Das páginas para os palcos

Mesmo com um projeto tão ousado e que já atingia massas, ainda havia um último obstáculo à “viralização” de sua obra: o analfabetismo. Foi por esse motivo que Charles Dickens decidiu adaptar os seus textos para o teatro, dando início a uma bem-sucedida carreira de interpretações.

Ilustração de Dickens lendo um de seus livros para o público.
Dickens fez 450 apresentações em 5 países diferentes — sendo quase um terço delas de um dos favoritos do público, Um Conto de Natal.

O melodrama surgiu no contexto da Revolução Francesa e ficou imbuído de um forte caráter social. Nos séculos XVIII e XIX, o teatro passou a ser território de disputa de classes, sendo palco tanto para as tentativas dos mais pobres de ganhar voz e representação quanto para as incursões dos que detinham o poder de impedir o seu sucesso. É no melodrama que jazia o caráter revolucionário das artes na época de Dickens — tão revolucionário que, desde 1737, a Coroa inglesa havia proibido a realização de peças teatrais fora do círculo da elite, com o objetivo declarado de “elevar os padrões do teatro”.

Vendo-se em um contexto em que o teatro popular era sujeito à censura e imediatamente relegado à ilegalidade, Dickens não teve dúvidas em adotá-lo como parte de seu projeto. Ter direito e acesso a peças teatrais era, nesse contexto, símbolo de capital cultural — embora o conceito de linguagem como ferramenta de poder seja contemporâneo, é difícil pensar em um exemplo mais concreto de opressão por meio da linguagem do que esse, já no século XIX.

As fórmulas de contos de fadas

Além da linguagem acessível, das representações teatrais e do recurso ao melodrama, há mais uma chave para o sucesso estrondoso da produção dickensiana e para a popularização do seu ideal de Natal: o uso da fórmula dos contos de fadas. O autor mesmo relatou ter pego velhas histórias de ninar e dado a elas uma “forma mais elevada”. À maneira dos contos de fada tradicionais, em Um Conto de Natal, acontecimentos fantásticos dominam a trama e a moral é fortemente reiterada ao fim. O pacto de leitura estabelecido pela estrutura dos contos de fada — que permite que se conte histórias inverossímeis sem que se perca a confiança ou a atenção do leitor — foi essencial para o projeto de Dickens. Somente assim, ele pôde mostrar o mal — o elitismo, preconceito social, a avareza e outros valores encarnado por Scrooge — e ao fim negá-lo por completo.

A certeza de uma melhora, fórmula adotada por Dickens em todos os seus livros de Natal, atua como uma âncora, uma promessa incondicional e necessária para que o leitor consiga atravessar as partes mais repulsivas da história sem perder a esperança. É uma ferramenta inconsciente de estímulo, tradicionalmente oferecida pelos contos de fada com o seu “e viveram felizes para sempre” — na trama, representado pela transformação completa de Scrooge.

Dickens não foi o único a trabalhar pelo resgate dos valores do Natal, mas foi certamente o que dispôs das estratégias mais eficazes. Quanto às passas no seu arroz, bem, sim — como se não bastasse ter influenciado todos os outros rituais de sua ceia, Dickens homenageia as “tão abundantes e preciosas passas” em uma das mais ricas descrições das comidas típicas do Natal. Como diria Scrooge… Palhaçada!

DICKENS, Charles. Um Conto de Natal. 1ª ed. Rio de Janeiro: Antofágica, 2019.

PUGLIA, Daniel. Charles Dickens: um escritor no centro do capitalismo. São Paulo, 2006.

WATERS, Catherine. Dickens and the politics of the family. Cambidge, 1997.

JOHN, Juliet. Dicken’s Villains: Melodrama, Character, Popular Culture. Oxford, 2003.

STONE, Harry. Dickens and the invisible world. Los Angeles, 1979

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