FRETE GRÁTIS em pedidos a partir de R$ 250

COMPARTILHAR:
  • 0 Items - R$0.00
    • Sem produtos no carrinho.
atf_2NavioNegreiro_67MateriaBlog_Banner

A recente edição de O navio negreiro, da Editora Antofágica, oferece ao leitor críticas ricas para uma leitura ampliada da obra de Castro Alves. Somando-se a esse conjunto de textos, uma contribuição que articule intelectuais africanos e o fenômeno da dispersão dos povos do continente – a afrodiáspora – pode lançar luz sobre aspectos pouco explorados do poema. Em que o tratado poético de Castro Alves nos faz pensar? Quais sentimentos “O navio negreiro” mobilizou e continua despertando? O que esse “documento” nos revela sobre a afrodiáspora? Essas perguntas colocam sob análise o fenômeno da escravização, demonstrando como era violento o percurso atlântico de pessoas transformadas em mercadorias. Em termos filosóficos, podemos falar que a explosão e a colisão de sentimentos que estão no navio em plena tragédia no mar são um tipo de “africanidade global”.

Este texto procura elaborar uma hipótese: a de que esse poema de Castro Alves é uma chave para a compreensão das sociedades contemporâneas marcadas pela escravização e pela colonização. Quando foi escrito, em 1868, o projeto iluminista já estava na agenda das metrópoles europeias. Por outro lado, a brutalidade contra os povos africanos e seus descendentes na travessia do Atlântico era uma amostra do “fracasso” de tal projeto. Algumas análises são bem taxativas, tais como a de Susan Buck-Morss (1), para quem o Iluminismo era compatível com a violência e a desumanização de não brancos – quando o filósofo branco alemão Georg Hegel escreveu que “o homem é racional”, referia-se aos homens brancos europeus. O universalismo colonial sempre desconsiderou a humanidade de alguns. O terror racial faz parte da modernidade ocidental, e a racionalidade moderna não apresentava o projeto de exploração e pilhagem imposto pela Europa em outras regiões do planeta, em contradição ao pensamento iluminista.

O processo violento de brutalização racial criou uma série de traumas psicossociais. Frantz Fanon (2) desenvolveu noções que ajudam a perceber um dos efeitos mais perversos dos processos de escravização e colonização: a confecção de máscaras brancas. A única maneira de ser gente de verdade seria usando máscaras brancas para viver, isto é, “comportando-se como gente branca”. Essa ideia se expressa de muitas formas. Fanon argumenta que, nesse processo, os brancos também estão envoltos por um tipo de neurose social, uma fantasia paranoica de que precisam defender sua branquidade a qualquer custo. Em Os condenados da terra, Fanon foi enfático: precisávamos, naquele momento, deslocar a Europa do papel de centro geopolítico em torno do qual todo o resto do mundo gravitaria. O projeto europeu não fora bom para o mundo.

Na esteira de Fanon, Achille Mbembe fez algumas observações pertinentes em Crítica da razão negra, que podem ser lidas lado a lado com o poema de Castro Alves. De acordo com Mbembe (3), o tráfico atlântico transformou mulheres, homens e crianças do continente africano em “pessoas-ferramenta”, “pessoas-mercadoria” e “pessoas-moeda”. Ora, em certa medida, é dessas vivências que “O navio negreiro” trata. E Mbembe continua articulando momentos históricos relevantes para o que vamos chamar de “africanidade global”. O segundo se deu quando africanos e seus descendentes passaram a utilizar uma linguagem própria no contexto do fim do século XVIII. O terceiro momento é o mundo privatizado sob as ordens do neoliberalismo na passagem do século XX ao XXI. Existem alguns elementos históricos que constituem determinadas experiências de caráter global.

Na década de 1960, pensadores africanos como Joseph Ki-Zerbo, Amadou Hampâté Bâ e Amadou-Mahtar M’Bow participaram de um projeto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) que tornou pública a coleção História Geral da África. Nesse trabalho de fôlego, a intelectualidade africana trouxe à luz uma noção relevante para a leitura do poema. No nono volume da coleção, encontramos a expressão “África global”.

A africanidade global passa pela experiência da diáspora. De modo bem geral, podemos compreender essa dispersão africana, e também os conflitos gerados pela colonização e a resistência que levou às revoluções anticoloniais, como um processo marcado por um tempo histórico que não opera somente através de continuidades visíveis. A africanidade global reivindica diálogos entre instâncias diversas, e as mais diversas articulações podem fazer sentido, porque, no corpo das pessoas, encontramos a ressonância de tradições.

 

Até o momento, a África e suas Diásporas foram muitas vezes apresentadas como grupos distintos separados pelo oceano que tiveram alguns contatos esporádicos durante curtos momentos históricos. Os redatores dos novos volumes da História geral da África quiseram romper com essa perspectiva binária e reducionista das relações entre a África e suas Diásporas.

Ao introduzir o conceito da África global (Global Africa), o comitê científico internacional desejou propor uma releitura inovadora desses laços. Esse conceito permite de fato compreender a história das relações entre africanos e pessoas de ascendência africana como um processo articulado e contínuo, fato de circulação de pessoas, de conhecimentos, de saber-fazer, de produções culturais e cuja matriz é a herança africana. (4)

 

Nos contextos da afrodiáspora, todos os espaços são potenciais territórios de reinvenção das dinâmicas de outros tempos e de locais distantes. Aqui defendemos que o afropolitanismo formulado por Mbembe é uma chave de leitura para a compreensão, ainda que parcial, da africanidade global. O afropolitanismo é uma “estilística”, diz Mbembe (5), um tipo de sensibilidade cultural e histórica. Uma espécie de experiência compartilhada. Por exemplo, quando fala da dor de vir de um continente para o outro num navio de tortura, Castro Alves nos apresenta a linguagem da violência. Uma experiência compartilhada por povos que vieram destituídos de humanidade.

Pois bem, essa foi a linguagem que o projeto de uma economia brasileira com base na plantation cunhou a ferro e fogo. A África global está no poema. Ficamos comumente restritos aos marcadores do Estado-nação, criando identidades nacionais atreladas a uma língua, um só povo e um território. A africanidade global rasura essas fronteiras. No navio, chegavam pessoas africanas de etnias e línguas diversas. Estamos de acordo com Mbembe: reivindicar uma experiência global africana e das dispersões é o mesmo que recusar “toda forma de identidade vitimizadora, o que não significa que ela não tenha consciência das injustiças e da violência que a lei do mundo infringiu” (5) à África e seus descendentes.

Que convite Castro Alves nos faz quando percorremos o Atlântico sob a batuta ritmada por torturas, gritos de dor, mulheres em desespero sem amamentar seus filhos e homens acorrentados sob olhares brancos de fúria? Não é o caso de focarmos somente nas condições de pessoas objetificadas, transformadas em mercadoria e propriedade monetária de gente branca. Existe um chamamento para a lucidez. O modelo de produção desumanizador faz sentido na lógica de exploração econômica capitalista. O apelo de Castro Alves é um grito para que a rota seja fechada. Um lugar de fala branco clamando pela indignação de gente branca.

A hipótese é simples: o ritmo do poema é uma súplica por alguma racionalidade branca antiescravagista. Mas não bastaria fechar a porta dos mares antes navegados por Colombo. Por quê? Porque cessar o sequestro era importante, abolir a escravização era urgente. E também remodelar o imaginário para que a sociedade concebesse gente negra como gente. É preciso que consideremos a africanidade global, o que significa dizer que as pessoas negras têm uma história que vai além da escravidão. A denúncia feita pelo poeta é um ponto de partida. O sentimento de indignação é um recurso a que a africanidade global pode recorrer. Mesmo que ele sozinho não seja suficiente para resolver os desafios impostos pelo racismo, ele é necessário.

A indignação, como todas as emoções, tem um componente cognitivo, trazendo consigo uma capacidade de avaliação que abre caminho para construirmos alternativas para lidar com a realidade. A hipótese que desejo compartilhar pode ser dita da seguinte maneira: Castro Alves convida o leitor a experimentar muitos sentimentos. Entre eles, a indignação é uma espécie de ferramenta. Ao mesmo tempo, a empatia com os corpos amontoados no tumbeiro integra o rol de emoções exigidas diante de crimes tão bárbaros. Se Castro Alves nos convoca a recrutar nossa revolta, existe um caminho, mesmo que anacrônico, para o que na atualidade se designa como África global. Como a africanidade global não existe sem levante diante da injustiça, a indignação se expressa justamente pela vontade e pela organização para afrontar abusos. A África global é a possibilidade de costurar histórias que não se permitem ficar restritas à violência e à determinação eurocêntrica de valores.

Castro Alves fez um tipo de tratado poético, narrando um percurso marcado por brutalidades, num convite direto para que a sociedade se indigne. Sem isso, não podemos recrutar energia suficiente para produzir justiça. A revolta pode levar a população preta e parda no Brasil, tal como diz Neusa Santos Souza, a se tornar negra. Ou ainda, como Lélia González reclamou, pôr a sociedade brasileira no divã para tratar-lhe o racismo. Abdias do Nascimento falou em combater o menticídio – a corrosão que o racismo faz do nosso poder de problematizar e ler a realidade. Uma interpretação possível é que todas essas reflexões partem do sentimento de indignação. Diante de tanto horror, não é possível mais compactuar com a violência. Uma pessoa indignada procura alternativas. Mas como resistir num contexto histórico-social em que as formas de dominação e controle são cada vez mais sofisticadas?

Mbembe faz uma leitura interessante da atualidade: existe um projeto de retomada mais plena possível da escravidão sob o disfarce de um modelo de trabalho mais conveniente à exploração do capitalismo contemporâneo. As vias do Atlântico pavimentaram os fluxos marítimos para a produção do mundo como o conhecemos. Mas, em certa medida, nunca foram demolidas. O projeto escravagista não cessou, mas foi modulado e reformatado, e o sequestro e o tráfico de pessoas continuam de outras maneiras. O racismo segue fazendo muitos estragos ininterruptamente.

De acordo com Mbembe, o neoliberalismo é a revitalização do programa escravagista da plantation. Os “navios negreiros” foram reeditados, elaborados na sociedade contemporânea com outras roupagens. A partir dessa linha de raciocínio, a reivindicação do poeta por indignação é atual. As condições de exploração capitalista e as diversas formas de opressão estruturadas pelo patriarcado e pelo racismo permanecem criando suas travessias por Atlânticos tortuosos. Os exemplos vão desde homens jovens presos por engano após reconhecimento por foto até crianças assassinadas por motivos torpes. Em todos os casos, gente negra.

A indignação que Castro Alves nos convida a experimentar é ferramenta para abalar as novas configurações de navios negreiros. Para isso, sem dúvida, precisamos continuar investindo em contar uma “nova” história da África e sua diáspora. Precisamos reforçar que a afrodiáspora nos permite entrevistar o mundo por meio de uma africanidade global. Em certa medida, isso não necessariamente significa que traremos uma nova história a público. Trata-se de contar todas as histórias sem máscaras e pontos de vista brancos. As perspectivas negras são caminhos para que possamos promover rotas de humanização para um futuro que não tema conversar com o passado. Talvez uma das maneiras mais interessantes de instalarmos um presente em que todas as pessoas recrutem suas forças em prol da justiça – e principalmente as brancas tomem para si a responsabilidade de ficar indignadas com os próprios privilégios. O poeta está alertando a branquitude que é digno envergonhar-se de todo discurso de má-fé que justifica o racismo.

O que diversos intelectuais do continente africano e da diáspora estão formulando é razoavelmente trivial: se não debatermos o lugar da África global no sistema mundo, a nossa humanidade estará em xeque. A agenda ocidental capitalista não tem todas as respostas para os desafios que enfrentamos no mundo contemporâneo, e o narcisismo branco é patológico e impõe uma arrogância política muito perigosa para todo o planeta. Porque insiste em usar as mesmas respostas para perguntas diferentes. O dogmatismo do narcisismo branco precisa dar lugar à consciência crítica da branquidade (assunto muito bem trabalhado pelo sociólogo Lorenzo Cardoso). “O navio negreiro” chama a atenção para como pode um povo ser tratado de jeito dantesco? Racismo, exploração capitalista e gente branca cheia de privilégios.

Castro Alves desperta no leitor a empatia e a indignação. É como se dissesse: “Nós, gente branca, deveríamos ter vergonha de participar desse processo violento, mesmo que participemos com nosso oportuno e conivente silêncio.” No seu tempo, na conjuntura histórico-social do século XIX no Brasil, o poeta afirmou ser imoral conviver com a brutalidade que reinava nas naus errantes como se fosse uma banalidade. “O navio negreiro” é um convite à reflexão sobre a violência racista que privilegia a população branca. Afinal, nenhuma pessoa pode perder a capacidade de indignar-se. Sem isso, algo demasiado precioso e inegociável de nós desaparece: a nossa humanidade.

 

Notas

(1) BUCK-MORSS, Susan. Hegel e o Haiti. Tradução: Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1, 2017.

(2) FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução: Sebastião Nascimento. Colaboração à tradução: Raquel Camargo. São Paulo: Ubu, 2020.

(3) MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução: Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1, 2018. p. 13-15.

(4) UNESCO. Histoire générale de l’Afrique. ©2021. Disponível em: https://fr.unesco.org/general-history-africa. Acesso em: 25 set. 2019 apud MALOMALO, Bas’Ilele. Decolonialidade africana/negra: uma crítica pan-africana construtiva. Capoeira, Redenção, v. 5, n. 2, p. 128, 2019.

(5) MBEMBE, Achille. Afropolitanismo. Tradução: Cleber Daniel Lambert da Silva. Áskesis, São Carlos, v. 4, n. 2, p. 70, jul./dez. 2015.

Referências

BUCK-MORSS, Susan. Hegel e o Haiti. Tradução: Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1, 2017.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução: José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução: Sebastião Nascimento. Colaboração à tradução: Raquel Camargo. São Paulo: Ubu, 2020.

MALOMALO, Bas’Ilele. Decolonialidade africana/negra: uma crítica pan-africana construtiva. Capoeira, Redenção, v. 5, n. 2, p. 114-140, 2019.

MBEMBE, Achille. Afropolitanismo. Tradução: Cleber Daniel Lambert da Silva. Áskesis, São Carlos, v. 4, n. 2, p. 68-71, jul./dez. 2015.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução: Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1, 2018.

 

Clique aqui para conhecer a edição da Antofágica de O navio negreiro e outros poemas!

 

Renato Noguera é doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Filosofia e Epistemologia da Psicanálise pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Atua como professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), escritor e celebrante de casamento. Escreveu este texto sobre a obra O navio negreiro, de Castro Alves, especialmente para a Antofágica.

COMPARTILHAR:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.