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*Por Ana Kiffer

 

Pas de restitution véritable non plus,
en l’absence de ce qu’il faut bien appeler
la capacité de vérité.

Achille Mbembe

 

Como Kafka escapou desse corpo que nos disseram ser o nosso?

O corpo ereto, o corpo da língua, o corpo orgânico, organizado, racional, hierárquico, cheio de poder, de si mesmo, prenhe de julgamento, pronto para a guerra, heroico, guardando no fundo de si as dores inconfessas, os fracassos, os medos, ou expelindo-os para fora, para um outro mundo, corpos e línguas distantes, e ali deixando tudo o que nos assombra?

Toda a sua obra não fez senão isso: escapar desse corpo.

Ao final de tudo ele pedia, a seu amigo Max Brod, que até sua obra escapasse desse corpo. Deixando, ela também, de ser um corpo — o corpo da obra.

Muitos leram esse episódio como desejo de autodestruir-se, como uma espécie de insegurança primordial que afeta os grandes escritores, incapazes de enfrentar as próprias dúvidas, de tornarem-se autores em se desautorizando. Claro, há também tudo isso. Mas aqui, hoje, podemos entender que essa aspiração estava banhada pelas mesmas afecções que o faziam buscar sem cessar e, decerto, da forma mais dolorosa mas também mais vital, escapar desse corpo que nos dizem, ainda agora, ser nosso.

Unificar-se em um corpo-obra é também uma forma de morte. Petrificar-se numa forma-corpo, estabilizar-se numa só língua, numa só família linguística, sanguínea, ou mesmo afetiva e amorosa, num emprego, numa casa, num país, de fato não parece ser tão simples, tampouco tão profícuo como muitas vezes querem nos fazer crer. Kafka não deixou de ver esse corpo, antes mesmo que o horizonte sombrio da história pudesse enxergar como tudo isso iria se desmantelar sobre nós. Essa espécie de visão lancinante dos riscos de ter que ser um só corpo. Os regimes nazifascistas. Os crimes de guerra. Os crimes de escravidão. Os campos. Os navios negreiros. Os corpos queimados e amontoados dos judeus, negros, homossexuais, ciganos, pobres, corpos que como o de Kafka testemunharam sem cessar uma história que ainda, mesmo que de outro modo, não deixa de nos assombrar. Contra essa fogueira inquisitória dos julgamentos infindáveis, contra os fornos crematórios dos corpos que não importavam, que não se conformavam à forma erigida, os corpos que não eram nem são só forma, contra a máscara branca, Kafka reivindicava uma outra chama, diferente. Uma chama viva — um chamado. Queimar seus livros, sob esse aspecto, é algo que se realiza a cada vez que os lemos.

Mas ele também não deixou de ver, virtual e simbolicamente, quantos foram os corpos que não ingressaram nesse “um só corpo”. Dependurando-se nas bordas, famintos enjaulados ou artistas já sem arte (O artista da fome), cantores desafinados, povos imperceptíveis (Josefina, a cantora ou o povo dos ratos), criminosos sem sentença até que tudo sobre o corpo se inscrevesse — aliando a verdade do veredicto à própria morte do corpo (Na colônia penal), presos em labirintos sem fim e sem começo (O processoO castelo), credores de uma dívida ela mesma impagável, herdada, apequenando-se, rastejando, sob o impacto desses corpos cada vez mais fortes (Carta ao pai), em que as fronteiras acirram-se e as diferenças aniquilam umas às outras. Vidas de borda. Bordas da vida.

Mas eis que uma fórmula agita-se numa manhã. Depois de sonhos intranquilos. De noites infindáveis. Ela faz nascer Gregor Samsa. Sob o risco. O medo. A dor. E sob as perdas que envolviam esse único corpo, insurge a potência d’ A metamorfose.

Em uma de suas poucas novelas publicadas durante a vida, em 1916 irrompe, deitado sobre as costas duras como couraça, Gregor, metamorfoseado num inseto monstruoso. Mas como convencermo-nos dessa potência metamórfica se Gregor, esmagado por um corpo denso e largo sobre patas finas e incontroláveis, mostra-nos tão somente o abandono, a solidão e a fragilidade na qual encerra-se e na qual é deixado, dada a estranheza, a feiura e o medo que provocava em toda a “espécie humana”? Qual espelho faltou entre essa espécie humana e a tal potência metamórfica do corpo de Gregor? Um espelho que nos permitisse ver-nos mutuamente. Ao mesmo tempo. Um ao outro. Seria mesmo um espelho? Ou talvez um quadro? Uma possibilidade diferente de representar, mesmo quando sem imagem — imago — forma corpo? Seria aquele quadro que tanto desejara que continuasse em seu quarto depauperado por sua família após sua transformação? Seria essa representação não representativa de si, do outro e do mundo, para a qual sua literatura nos leva e nos chama? Seria esse quadro sem enquadre o que poderia “salvar-nos” dessa incompreensão terrível da própria espécie humana para com um corpo que dela se desgarra, ainda assim pertencendo ao que de mais profundo nos toca? A fragilidade do corpo. A vulnerabilidade dele. A sua possibilidade de ser o que não somos nós mesmos — mais humanos do que espécie. Seria essa a potência terrível que Gregor descortina para nós e com a qual nos violenta?

Mas talvez ainda não, talvez uma fábula seja só uma fábula. E, no caso, essa fábula, a do animal humano, ou do que no humano nada mais é senão sua força de abater os corpos “frágeis”, não queira dizer nada além de tudo o que de fato somos: animais que um dia se acreditaram superiores, fixados em suas formas, cristalizados num corpo capaz de dominar como se fosse cuidar.

Mas talvez ainda não. Precisamos, como Gregor, nos movimentar lentamente. Escondermo-nos um pouco mais por detrás dos móveis. Buscar não respirar por um longo período, debaixo do sofá, chegando ao estado de sufocação. Tentar virar a cabeça sem, no entanto, encontrarmos um destino. Suportar a fome. Suportar a fome. E por fim buscar falar quando já estamos afásicos. Nesse ponto está essa espécie outra — a maravilhosa fórmula metamórfica de Gregor. Não sua forma inseto, monstruosamente destruída pela espécie humana. Mas sua lenta e laboriosa capacidade de sobreviver, mesmo quando vários corpos tomam o seu. Encurralando-o, abandonando-o ou imobilizando-o.

Ler ou reler um clássico implica não somente em conhecer o contexto desse autor e de sua obra (na maior parte póstuma). Mas também nos permitir ser tocados pela força daquilo que, depois de cem anos, ainda hoje nos interroga. Desalojando-nos de nossos assentos.

Isso que nos toca está presente em toda a nervosidade que percorre a narrativa. Nervosidade essa que em nada depende do suspense. Já que desde a primeira linha de seu texto sabemos que numa manhã um jovem comum, caixeiro viajante, trabalhador que sustenta a falência de sua família, encontra-se metamorfoseado num inseto monstruoso.

De onde vem então essa nervosidade que ainda nos toca, pungente, presente ao longo de todo o texto?

Estaria ela na angústia desse homem cujo corpo vai pouco a pouco alterando seus movimentos, sua possibilidade de estar no mundo que lhe pertencia, de mexer a cabeça, ou de poder ou não falar? Curiosamente sua comunicação com a espécie humana não se interrompe, porque de algum modo ele, em nenhum momento, deixou de ser Gregor, mesmo sendo também, e ao mesmo tempo, aquele “inseto monstruoso”. O que se interrompe de fato é a comunicação da espécie humana com sua espécie–metamórfica, que a partir de uma manhã passa a abrigar, num mesmo e diferente corpo, Gregor e o inseto desconhecido no qual ele subitamente se transformou.

Essa nervosidade oscila entre a apropriação por Gregor de seu novo corpo e a recusa da espécie humana desse mesmo corpo. Recusa esta que continua ainda hoje presente em cada um de nós, e em nossas sociedades. Prontas a erigir formas aceitáveis e a recusar cotidianamente outras formas de corpos. Passados cem anos, continuamos sem saber como suportar nossas vulnerabilidades (condição intrínseca aos fenômenos de metamorfose dos corpos), assim como suportar o que difere em nós e no outro. Frutos hoje já decaídos de uma Gestalt definidora e falsamente englobante.

Mas essa nervosidade que sentimos lendo A metamorfose fala também de algo que nos é comum — no seio de nossas enormes diferenças e incluso da diferença entre a espécie humana e os insetos horrorosos. E por isso, nesse momento, em que somos “todos” atingidos, ela se torna essa ferramenta: uma patinha nervosa do inseto, uma antena capaz de sentir os cheiros comuns da gente, uma fórmula irmã que horizontaliza o que todo o tempo tentamos hierarquizar, como se o corpo só pudesse existir sodomizado ou sodomizando.

Essa é a fórmula ainda tão atual desse livro. Em tempos nos quais carecemos de todos os lados de um comum que simplesmente respire o mesmo ar.

Os estados de sufocação que experimentou Gregor em seu outro corpo, escondendo-se para não assustar a espécie humana, mesmo que se sentisse “ele mesmo”, frágil e inofensivo, são hoje estados cada vez mais cotidianos em nossa vida. Como se já não respirássemos todos o mesmo ar.

E do que sufocamos?

Sufocamos quando tudo o que parece nos incluir, nos “globalizar”, nos unir acaba por nos apartar, separar, expulsar, impedir. Sufocamos quando não cantamos mais juntos. Quando não dançamos mais juntos. Quando não falamos mais juntos. Quando odiamos uns aos outros e não odiamos juntos o que nos aflige.

Quando continuamos sem poder dizer verdadeiramente o que nos sufoca, sufocamos.

Mas uma fábula, tão irreal quanto inverossímil, apenas uma fábula, pode ela de algum modo nos restituir essa capacidade de verdade?

Num tempo em que inventar falsidades torna-se o modo de produzir verdades, qual seria essa outra saída que, de fato, nos restituiria um poder para dizer de verdade?

Há algo estranhamente verdadeiro nas marcas que trans-formam os corpos. Há algo de extremamente delicado e brutal em tudo aquilo que do corpo escapa, goteja, dobra-se, curva-se, retrai-se, expande-se. Há algo de extremante verdadeiro em toda metamorfose dos corpos. Há algo de inverossímil, indizível e incontável se juntos olhamos para as memórias traçadas nos corpos do mundo. Incontável porque escapa. Porque é pura história sem palavra. Metamorfose incomunicável entre o corpo de Gregor e a espécie ereta da humanidade. Corpos metamórficos passam entre os corpos mortos e vivos. Homens e animais. Gérmen e ovo. Putrefação e embrião. A atividade da memória dos corpos nunca foi igual à verdade que se contou e se conta. A espécie humana se ocupou de enterrar essa verdade. Por isso restituir a capacidade da verdade passa também por produzir corpos sensíveis a seus traços. Que suportam esses traços — pernas, cabeça e antenas incontroláveis. Mas ainda assim vividos. Combater com a memória dos corpos (parcial, ofuscada, já falseada e tingida de vida) toda política do apagamento talvez seja um caminho que volta à metamorfose e ouve o que Gregor não pôde dizer à família. Trazendo para nós algo dessa responsabilidade, implícita em toda restituição para com os corpos. E em toda capacidade conjunta de verdade. Capacidade de verdade que combate a política do extermínio e seu posterior apagamento:

Gregor, inseto, esquecido ou esmagado.

Com ele está um tanto das patas de todos nós.

Nota final: optei por não cansar o leitor com inúmeras citações mas, neste texto, estão muitas vozes.

Algumas que li ou mesmo que escrevi em outra parte: ANTELME, R. L’espèce humaine, Paris, Tel-Gallimard, 1957; DELEUZE, G. Critique e Clinique, Paris, Minuit, 1999; DELEUZE, G. & GUATARRI, F. Mille plateaux, Paris, Minuit, 1989; FANON, F. Peau noir, mascs blancs, Paris, Seuil, 1952; GARRAMUÑO, F. “Poderes de la vulnerabilidad: afectividad y resistencia en la estética contemporánea ” , En mundos en común : ensayos sobre la inespecificidad en el arte, Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 2015; GIORGI, G. Odiar en común (inédito); KIFFER, A. Antonin Artaud, Rio de Janeiro, Eduerj, 2017; KOPENAWA, D. e ALBERT, B. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, São Paulo, Companhia das Letras, 2010; GROSSMAN, E. Les corps hypersensibles, Paris, Minuit, 2017; MBEMBE, A. Objets sauvages, 2018.

Outras que aprendi vivendo ou ouvindo: Ialorixá Wanda Araújo, e todos os corpos metamórficos que habitam nossa cultura ancestral, negra e indígena no Brasil.

*Ana Kiffer é escritora, pesquisadora e professora de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio. Escreveu esse texto especialmente para a Antofágica.

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