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Por Leandro Saioneti*

Antes que este texto termine a sua primeira sentença e avance, caro leitor, é importante dizer: o legado de A Ilha do Tesouro, do escocês Robert Louis Stevenson, é singular. Isso porque esta jornada de influências que se cristalizou no imaginário popular e explodiu no mundo pop se confunde entre mitos, verdades, inspirações e adaptações.

Não, Stevenson — o mesmo autor que deu a um Médico o seu Monstro exterior em 1886 — não inventou a roda do “gênero pirata”, mas foi fundamental para torná-la conhecida no imaginário coletivo, muito antes que qualquer Jack Sparrow virasse a sua primeira garrafa de rum. A partir de seu texto, originalmente publicado na revista Young Folks entre 1881 e 1882, ele jogou luz sobre os mistérios dos sete mares e nos fez acreditar em todas as possibilidades além da linha do horizonte. E isso, sejamos sinceros, é único.

O local

Os mapas sempre existiram, levando a humanidade pelos mais diferentes caminhos, sob as mais diferentes intenções e, claro, para os mais diferentes destinos. E essa jornada “guiada” trilhou caminhos entre a ficção e a realidade, fossem as buscas pela cidade perdida de El Dorado, a partir do mapa quase imagético do explorador inglês Walter Raleigh, fossem os caminhos rumo a um tesouro em Os Goonies (1985), seguindo o mapa do pirata Willy Caolho.

Mas foi Stevenson quem resolveu colocar um X no seu papel já gasto e iniciar a jornada de Jim Hawkins rumo ao tesouro do lendário capitão Flint. Desde então, a 24ª letra do alfabeto latino se tornou uma espécie de marca registrada para quase qualquer mapa pirata que se preze na ficção. Mesmo que — surpresa! — os próprios mapas nunca tivessem sido uma obrigação para a “categoria”. Tanto que alguns dos tesouros mais famosos da história pirata, como o de Francis Drake (século 16) e William Kid (século 17), nunca chegaram a ter um mapa. Muito menos um X. Aliás, nem a prática de enterrar tesouros era um costume entre eles, que preferiam a partilha imediata das pilhagens. Ponto para o nosso autor.

A sentença

Todo pirata é culpado antes que se prove o contrário! Mesmo que isso não seja uma verdade universal, nunca foi uma boa ideia confiar em um traiçoeiro lobo do mar — principalmente, se o dito cujo possuísse a marca negra. E isso é tudo culpa de Stevenson.

Símbolo quase imortal presente nas infinitas obras inspiradas nesse mundo, a marca negra (geralmente uma mancha circular tatuada na palma da mão ou impregnada em um papel) é um símbolo de mau agouro e “assina” a culpa e condenação de um pirata. E foi o autor de A Ilha do Tesouro o primeiro a sentenciar alguns de seus personagens com essa ameaça muda, inspirado pela cultura dos piratas da região caribenha, que costumavam exibir um ás de espadas aos culpados e condenados. Dali, a marca negra cruzou os oceanos, aparecendo nos mais diversos meios: dos piratas caribenhos da Disney aos Muppets, passando pelas séries 30 Rock e Black Sails.

O homem

Se eu pedir para você fechar os olhos e imaginar um pirata, de corpo e alma, é provável que mãos de gancho, pernas de pau e tapa-olhos saltem em flashes dentro da sua mente. Nesse caso, sinto informar, nosso querido autor teve só meia responsabilidade. Pois, diferente da obra original, que até fez uma representação relativamente fiel das tripulações com membros amputados, foi a famosa adaptação para o cinema lançada em 1950 e dirigida por Byron Haskin que resolveu colocar alguns adereços no lugar das pernas e mãos faltantes. E o caso mais emblemático foi a transformação da muleta do pirata Long John Silver no livro para uma emblemática perna de pau na telona.

E, mesmo que o filme do diretor de A Guerra dos Mundos (1953) não tenha se inspirado por obra divina (pois piratas com mãos de gancho até existiram, mas eram extremamente raros), ajudou a consolidar esse arquétipo, popularizando os trejeitos quase animalescos dos piratas, com seus grunhidos, frases de efeito e péssima educação. No entanto, se você considerar que eles vinham de todos os cantos do mundo, seguindo as mais diferentes tradições e regras, é fácil entender por que Capitão Gancho e companhia são mais fantasiosos do que qualquer outra coisa.

O início, o meio, o fim?

No começo deste texto, lembrei que o legado de Robert Louis Stevenson para a construção de um imaginário sobre o universo pirata foi único porque, a partir do mapa de uma ilha desenhada por seu enteado, o escritor abriu as portas para as mais infinitas possibilidades. E mesmo que não possamos afirmar com toda certeza, nosso imaginário provavelmente seria outro caso A Ilha do Tesouro nunca tivesse existido. Um cenário que não gostaria de conceber: em vez disso, prefiro celebrar aos sete mares o mundo fantástico que nasceu no final do século 19 e até hoje ganha forma em filmes, séries, peças de teatro, canções, jogos etc. Um legado que não tem destino certo, mas está marcado com um X bem ali, naquela ilha dourada.

Conheça a nossa edição de A ilha do tesouro, com tradução de Samir Machado de Machado, mais de 60 ilustrações coloridas de Paula Puiupo, apresentação do escritor Jim Anotsu e texto da pesquisadora Marina Bedran, especialista na obra de Stevenson. Além de um projeto gráfico bem especial da Giovanna Cianelli.

*Leandro Saioneti é jornalista especializado na área cultural. Com passagem pelas editoras Abril, Globo e Aleph, hoje trabalha com produção de conteúdo e marketing digital no Catarse.

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