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Este perfil está presente na edição de Memórias póstumas de Brás Cubas, publicada pela Antofágica. O texto é assinado por Ale Santos, escritor de ficção e fantasia afro-americana e pesquisador de narrativas africanas. Foi citado pela revista Piauí como o “Cronista dos Negros no Twitter” e é também colunista da Vice Brasil, além de colaborar com a The Intercept Brasil e com a revista Superinteressante. 

 

No século XIX, o Brasil é marcado por uma confluência de motivações, ideologias e realidades diversas se chocando e transformando as bases mais profundas da nossa nação. Inúmeros processos ou gatilhos sociais haviam despertado nos anos anteriores e se moviam para um futuro disputado por grupos políticos como monarquistas e republicanos. Seria mais simples descrever a realidade daquele período como uma batalha de interesses dicotômicos para facilitar nosso entendimento sobre as personalidades da época, só que isso destruiria a riqueza de suas almas, das emoções e desejos despejados em sua arte.

A complexidade dessa história alimentou e fez nascer um dos maiores nomes da literatura brasileira: Machado de Assis. Enquanto sua obra traduz a psique da sociedade, sua história revela as engrenagens por trás das camadas sociais e suas articulações. O próprio autor deixou poucos registros sobre seus primeiros anos de vida, a maioria deles estão em poemas como o que escreveu para sua mãe (“Quem foi que o berço me embalou da infância/ Entre as doçuras que do empíreo vêm?”). Mas grandes biógrafos como Manoel José Gondin da Fonseca se dedicaram a lançar luz sobre a vida do autor.

Não há como falar de Machado, ou melhor Joaquim Maria Machado de Assis, sem falar da grande cidade, Rio de Janeiro, na época, capital do Império. O escritor nasceu em 1839, quando o Rio estava em vias de se tornar palco de movimentos históricos como a abolição da escravatura e a fundação da República. Antes mesmo disso, foi o local de nascimento do primeiro jornal impresso do país, a Gazeta do Rio de Janeiro, e se tornou um terreno fértil para a elite intelectual do nosso país.

A capital brasileira enriqueceu muito durante o ciclo do café e também com o cultivo de cana-de açúcar e fez da escravidão a força motriz da sua economia. Até 1840, metade da população do Rio de Janeiro era composta por negros escravizados. A escravidão fazia parte do dia a dia de todas as pessoas e, assim como muita gente hoje em dia diz não saber viver sem a internet, naquela época poucos se “atreviam” a pensar como seria a sociedade sem a escravidão — era coisa para abolicionista. A historiadora Mary C. Karasch defende que os trabalhos manuais eram encarados como “coisa de escravo”, logo, coisa de pessoas pretas, africanas, crioulas.

Machado era filho do pintor Francisco José de Assis, referido muitas vezes como mulato, por sua vez nascido de escravos alforriados, que muitos biógrafos denominam como pardos. Isso revela uma das chaves para entender a noção racial construída por aquela sociedade, recaindo não apenas sobre o escritor, mas sobre todos os outros afrodescendentes no século XIX.

Utilizar as mesmas denominações da época não nos ajuda a determinar as características étnicas dessas pessoas como são hoje, afinal, não havia uma grande discussão na sociedade ou um esforço para entender a população negra. Os termos variaram diversas vezes em situações e regiões diferentes. O governo imperial distinguia a população apenas entre as raças brancas, indígenas e africanas. Tendo como resultado da miscigenação os pardos (negros com brancos) e caboclos (índios com brancos), todavia os pardos também poderiam ser conhecidos como crioulos se estivessem em situação de escravidão e como pardos em situação de liberdade — ambos sendo os negros nascidos no país, afro-brasileiros, diferentes dos africanos que recebiam da sociedade a maior carga de desprezo. “Pardo” foi substituído por “mestiço” em 1890 e depois, em 1911, é possível encontrar a defesa de João Batista de Lacerda, antropólogo e médico diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro para a denominação “mestiços negroides”, estes seriam os pardos com traços de afrodescendentes.

Francisco José se casou em 1838 com Maria Leopoldina, agregada de dona Maria José de Mendonça Barrozo Pereira, no morro do Livramento. Maria teria nascido em Açores e chegado ao Rio de Janeiro em 1815, mas sua história não é um consenso entre os historiadores. Inusitadamente, ambos os pais de Machado eram letrados, teriam sido educados na própria chácara em que viviam. Saber ler e escrever era um privilégio na época, estudos apontam o analfabetismo para mais de 77% da população acima dos quinze anos de idade, tendo em vista a parcela de escravizados dessa estatística — quase 50% da população — , podemos supor a existência de uma educação restrita à parcela mais rica da cidade.

Machado passou a frequentar uma escola pública da região. É importante ressaltar o quanto, naquele período, a formação dos professores e sua atuação na rede pública eram desniveladas. Após várias tentativas frustradas de implementação durante o Império, as primeiras escolas “normais” para docentes surgiram em 1835, reservando a melhor educação para a formação de professores da nova geração aristocrática. Então, é provável que Machado tenha recebido reforços na casa de sua madrinha de batismo e proprietária da chácara, dona Maria José.

Aquele garoto que tivera acesso a uma educação tão exclusiva teve contato cedo demais com a tragédia da morte. Aos quatro anos perdeu a irmã e aos dez, a mãe, um golpe do destino que marcou o escritor. Após o ocorrido, foi morar no bairro de São Cristóvão com o pai e ficou com ele até os quinze anos, quando resolveu se aventurar pelo centro do Rio de Janeiro por conta de uma desavença com a madrasta. É notável o apreço que apresenta com as letras já nos primórdios da sua adolescência. Era 1854, publicou no Periódico dos Pobres (jornal trimestral) e no ano seguinte já escrevia regularmente na Marmota Fluminense, de Paula Brito.

Esse caminho intelectual, extraordinário, seguido por Machado, o colocava em rota contrária à realidade da vida de seu pai, enquanto os serviços braçais estavam ligados à essência do africano e seus descendentes, o intelecto e a erudição (seguindo as normas da educação colonial europeia) tornavam o homem miscigenado ou mestiço mais aceito pela comunidade local — essa discussão só veio a se consolidar no início do século XX, quando o racismo científico da época foi dividido entre um grupo fiel à ideia da inferioridade racial negra biológica e outro que acreditava na inferioridade baseada na cultura ou na raiz social. O segundo grupo ganhou mais adeptos e acabou se perpetuando posteriormente. Eles entendiam o “mestiço” como alguém capaz de elevar sua existência por meio do convívio com os brancos. Portanto, segundo João Batista de Lacerda: “Os mestiços, com sua inteligência, dariam poetas, pintores, escultores, músicos, magistrados, oradores eloquentes e literatos admiráveis”.

Sua trajetória deixa claro a consciente articulação social e o gosto por estar em meio à elite intelectual não apenas para observar, mas para arraigar-se a ela. Aos dezessete anos, Machado se tornou revisor na Imprensa Nacional e encontrou na figura de Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, um grande apoiador. Foi no círculo boêmio carioca que estreitou laços com os principais intelectuais da época. Aliás, quando pensamos em Machado de Assis, tradicionalmente propagamos a imagem correspondente aos seus últimos anos de vida, entretanto essa fase de boêmia é bastante marcada pela discussão e observação da psicologia do ser humano, que viria à tona em suas obras. Nessa fase, o escritor frequentou o teatro, a política, a comédia, além de rodas de conversas em que pôde exibir seu pensamento perspicaz e sua eloquência.

Em 1860, aos 21 anos, já era influente com alguns nomes importantes da época, como o republicano Quintino Bocaiúva (o primeiro ministro das Relações Exteriores da República, que exerceu o cargo de 1889 a 1891). Cerca de três anos depois, o autor reúne em livro duas comédias: O protocolo O caminho da porta. Em 1866 conhece na casa de seu amigo Faustino a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novaes, que ali cuidava do irmão que sofria de distúrbios mentais. Carolina era considerada muito bonita e despertava interesse de várias personalidades mais bem-sucedidas que Machado naquele momento, mas a inteligência e suavidade com as palavras galanteadoras ganhou o coração da moça, que passou a ser chamada carinhosamente de “Carola”. Os dois se casaram a contragosto dos irmãos da moça, que insistiam em lembrar da ascendência negra do noivo, chamando-o de mulato. Mesmo assim, o amor prosperou. Ele escreveu várias cartas românticas a ela, assinando como “Machadinho”, e se orgulhava da sua boa educação: “Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar”, escreveu em uma das cartas.

Morando na Lapa com a esposa, Machado consegue um emprego na 2a seção da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, onde colocou em prática um pouco do seu pensamento abolicionista. Nessa seção, era responsável pela aplicação das leis no 2.040, de 28 de setembro de 1871, conhecida como Lei do Ventre Livre, e no 601, de 18 de setembro de 1851, conhecida como Lei de Terras. A com- preensão da realidade tornou seu discurso antiescravagista algo sutil. Apesar da discussão abolicionista ganhar cada vez mais adeptos, após os anos 1870, era considerada tabu ou uma questão problemática na qual muita gente da elite não gostaria de se envolver, e ainda havia, costurado na abolição, o futuro da monarquia, defendida pelo escritor.

André Rebouças, um dos abolicionistas considerados mais radicais, foi exilado, junto da família Real Brasileira, após a proclamação da República. Então, pode até parecer que Machado tinha certo instinto de sobrevivência em relação a essas questões, pois ele compreendia claramente algo que até hoje muita gente não percebe: a abolição não significou o fim do racismo. Ele usou sua ironia para escrever uma crônica, publicada em 19 de maio de 1888, famosa por apresentar um persona- gem tão hipócrita a ponto de alforriar um negro escravizado antes da abolição, para se aproveitar da fama, enquanto ofereceu ao mesmo negro a mesma humilhação em um modelo “novo” de trabalho remunerado:

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Na década de 1880 Machado gozava de um prestígio imenso, além de uma situação financeira inimaginável para qualquer rapaz negro de um cortiço no Rio de Janeiro, e já era chamado por alguns de “o maior escritor brasileiro vivo”. Começou a década publicando Memórias póstumas de Brás Cubas, foi morar na rua Cosme Velho em 1884 e se tornou oficial da Ordem da Rosa por decreto da própria Princesa Isabel. Entre seus grandes amigos es- tava Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, nome consagrado entre os maiores abolicionistas do país. Os dois trocaram cartas emocionantes, muito sinceras, revelando uma ligação verdadeira entre os intelectuais.

Foi com Nabuco que Machado compartilhou uma grande realização com a fundação da Academia Brasileira de Letras, escolhido por unanimidade como primeiro presidente. E foi com Nabuco, também, que compartilhou sua maior dor com a morte da esposa, Carolina, dias antes de completarem 35 anos de casados, em 1904: “Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo”, escreveu ao amigo. Os anos seguintes ao falecimento roubaram um pouco da vivacidade de Machado. O pesar não o imobilizou, estava frequentemente nas rodas de intelectuais e nos jantares, e sobretudo não deixava de escrever. Em 1908 publicou o Memorial de Aires, seu romance de despedida.

A morte chegou para o autor aos 69 anos de idade, vítima de uma úlcera cancerosa, como em um episódio dramático, recusou a extrema-unção do padre, oferecido por amigos. Seria hipocrisia, segundo o próprio autor. Uma multidão seguiu em cortejo da Academia Brasileira de Letras até o Cemitério São João Batista com seu corpo. Jornais noticiaram o fato e publicaram biografias do escritor no Brasil e em Lisboa. Sua obra e sua vida foram dignas de um verdadeiro mestre.

É uma infelicidade absurda que, no início da República brasileira, a elite intelectual tenha abraçado os ideais eugenistas, teorias sobre a superioridade racial ou cultural de pessoas brancas. Diferente da época em que Machado nasceu, na qual o peso de ser “mulato” era menor, após sua morte o entendimento era outro. Para muitos, a intelectualidade só seria alcançada por pessoas brancas, e vem do amigo próximo do escritor, Nabuco, a evidência do início do movimento de branqueamento de sua imagem. No aniversário do trigésimo dia do falecimento de Machado, José Veríssimo publica no Jornal do Comércio um artigo em sua memória: “Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida, pela euritmia da sua obra”. Nabuco ficou horrorizado e respondeu em carta: “Eu não teria chamado o Machado mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese […]. O Machado para mim era um branco”. Fato que não coloca em dúvida nada sobre sua obra, mas que ainda fala muito sobre o imaginário popular brasileiro.

Hoje estamos cada vez mais perto de enxergar a grandeza de Machado, não apenas como um mestre literário e gênio da época, mas como um revolucionário em sua própria existência.

 

Conheça a nossa edição que traz também notas inéditas e posfácio de Rogério Fernandes dos Santos, especialista na obra machadiana e uma introdução de Isabella Lubrano, do canal Ler Antes de Morrer. Além de 88 ilustrações de Candido Portinari, um dos maiores artistas brasileiros.

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